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Braços de Papel
Por João Martins
Março 2003
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Braços de Papel

Como me sabia bem, nos tempos de estudante, receber a minha cartinha quinzenal, um envelope normal com o selo dos cavalinhos dos correios, e dentro dessa minha carta, embrulhada numa folha de papel químico para que olhares curiosos não divisassem o recheio, uma nota de Santo António ou da Rainha Santa Isabel!... Era uma festa, se bem que nem sempre houvesse onde gastá-la da forma mais apetecida. Pelas figuras do papel moeda será fácil aquilatar a distância que nos separa dos tempos destas vivências.

Então, para quê enviar e receber do outro lado esses escudos se não eram de imediato usados na sua função primária de comprar bens ou serviços? Algo haveria...

Tento hoje entender e juntar essas notas moeda às outras notas escritas na carta, relatando factos aparentemente banais da vida do dia a dia de uma aldeia mais ou menos pacata: as linhas que a minha mãe escrevia dentro do mesmo subscrito muito orgulhosa de saber escrever (e se o fazia com primor...), e da possibilidade de me enviar alguns escudos fruto de muitas horas de labor. Dinheiro e escrita faziam ambos parte da sua afirmação; direi hoje que, juntas, eram então a sua forma de remessa! Ao meu esforço de estudo respondia com a sua alma cheia de carinho e o desejo de bem estar corporizado no dinheiro e nos beijos que me enviava, saudosa, em cada parágrafo da carta. Sem nos darmos conta, estávamos os dois “migrados” dentro do mesmo país, eu por razões do futuro e dos estudos que não se divisavam na aldeia, ela pela separação de longos trimestres entrecortados pelas semanas de férias.

Mas a linguagem do afecto era a mesma, e as palavras nossas!

* * *

Não serão relevantes as razões das voltas que muitos demos até chegarmos aqui, não importa o continente, já que aqui e agora, para mim, são a distância do meu país. Não se renega uma história, muito menos uma infância ainda que ambas partilhem alguma dureza e quem sabe se algum do desencanto que motivou a viagem. O que se bebeu com o leite mantém-se, por vezes cultiva-se e desenvolve, e muitas vezes, tantas das quais sem nos darmos conta, acrescenta-se e enriquece-se por comunicação com outras formas de viver, de sentir, de comunicar com outras culturas.

E é aqui que assume com vitalidade o que entendo como remessa cultural. Terá passado a força do envio de dinheiro para um país em reconstrução económica. Não terá passado a hora do envio de enriquecimento para uma nação em permanente construção cultural! Haverá sempre experiências e expectativas diferentes, resultantes do envolvimento com outras formas de assumir cultura. A emigração não é mais e apenas a força de trabalho enriquecedora dos países de acolhimento e do próprio. Há experiências de enriquecimento cultural integrado nas comunidades, nas escolas e universidades, nas associações culturais e nos clubes, nas expressões de arte colectivas ou individuais: na escrita, pintura, escultura, fotografia, ciência, associativismo, até mesmo na política. Quem será tão rico que recuse o contributo dedicado e voluntarioso?

A diáspora também terá uma palavra a dizer na caracterização de uma cultura comum, partilhada e em permanente evolução. Deveremos afirmar-nos conscientes dos bens comuns que possuímos e das potencialidades de futuro, há muito que ultrapassámos a fase parda de orgulhosamente sós.

Orgulhosos, sim, orgulhosamente muitos!

Seria essa a remessa cultural que a minha mãe orgulhosamente assumia e cuja reciprocidade me incutia?

Se eu te escrevo uma carta, eu vou nela,
em meus olhos e nos teus
ao lerem, eu parti
as palavras que em ti
visito sem ter dito
e pelo não dito deixam
sempre tanto para escrever;
são a distância do olhar
à voz, demasiado
perto de sentido e do sentir.
Intemporais sem data,
não são minhas, sim do tempo
do selo que foi posto.
Também aqui sou eu
aí estou sem voltar
lá onde as folhas de mim
partem sós... e eu com muito
para ler-te e sentir-te
nestes braços de papel
invadidos de viagens sustentadas
de ternura clandestina.
Se eu te escrevo uma carta leio
a infância que outrora me escreveste.

Também as minhas cartas, por tradição e necessidade, têm sempre o remetente!...

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