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CRÓNICAS


Intervalo das Palavras: Às vezes Acontece
Por João Martins
Agosto 2003
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O verbo é público e muito nobre por tudo quanto pressupõe e anuncia de presença e criação; esta surge, acontece pelas mais variadas razões, quantas delas circunstanciais, mas não resultado de um puro acaso desconexo, antes fruto da energia autenticamente universal que impele o artista, o provoca e conduz à obra. Acontecer é um acto criador, prenda dos deuses aos humanos segundo alguns, dom dos homens à humanidade, dirão outros.

Ora acontece que, como nos relatam os noticiários do nosso país, depois de várias ameaças não concretizadas, depois de muitos avanços e recuos enexplicados, um ministro de governo português anunciou através do seu delegado na administração na RPT o fim de um programa cultural chamado ACONTECE.
Ora acontece que tal programa é, muito simplesmente, o mais antigo programa cultural diário de televisão da Europa. Surpresa?
Acontece, ainda, que por lá passaram milhares de artistas e artesãos de todas as artes e ofícios, dos nóbeis aos menos divulgados, até mesmo desconhecidos, alguns deles do mundo da emigração. Nele tiveram voz e rosto os criadores de expressão, independentemente das cores, das ferramentas ou dos meios.
Acontece que não acredito que o ministro não seja informado disso, que não saiba que há pelo mundo fora muitos milhares de portugueses que ainda se preocupam com manter a ligação, diria mesmo reforçar com amor os elos que ainda mantêm com a língua e cultura Portuguesas, e que tal programa é um dos poucos no qual se revêem, porque do popularucho e do choradinho saudosista já começam a ficar cansados!
Acontece que, se a causa do fim do programa não é a desinformação ou ignorância do ministro, para além das já estafadas razões económicas que tentam servir de desculpa para tudo, temo que outras razões menos claras sejam subjacentes a tal decisão. A cultura continua a ser incómoda?
Acontece que não me deixo convencer que esse programa é elitista só porque apresenta preocupações culturais pontualmente elevadas para parte da população. Será que o problema está nas pessoas que sentem tais dificuldades ou na falta de visão de alguém que preocupado com o acesso público, está mais preocupado com o nivelamento por baixo. O mal das revoluções, mesmo as culturais, está no quererem acabar com os ricos em lugar de se preocuparem em eliminar a pobreza (cultural, neste caso).
Sempre que tal acontece ficamos todos a perder. Depois, deixa de ser notícia a existência do programa e passa a sê-lo o seu término, porque a propaganda se sobrepôe à autenticidade dos valores culturais. Do fim do mesmo se faz um (triste) acontecimento da maior importância.
Acontecerá um dia, quem sabe, que a história se encarregará de confirmar a validade de tal tipo de projectos enriquecedores em detrimento das atitudes anticulturais de um ministro ou seu governo tristemente célebre pelo afrontamento cultural. Se não gostarem do nome, do apresentador ou da equipa, corrijam-nos, mas mantenham viva a alma lusa nas letras, na pintura, no cinema, na escultura, música, artesanato de qualquer quadrante; depois, divulguem-na, espalhem-na ao mundo para gáudio de quantos a amam e dos que ainda não a conhece mas aprenderão a respeitá-la. Não ensinem caminhos apagando as luzes!

Depois de tantos acontecimentos, lamento e temo ser verdade a notícia avançada pelos jornais de Lisboa sobre o FIM do programa ACONTECE. E acontece que , com atitudes destas, sou levado a desacreditar em determinadas atitudes dos políticos, porque a política sempre visou (deverá procurar) o bem da cidade de todos, e concluirei que os políticos, esses sim, terão a visão distorcida sobre cultura.
Resta-me manifestar o meu sentimento de repúdio pela visão (ou a falta da mesma) economicista de um ministro, de um governo, (que não de um país) em que aqueles que não acreditam em cultura, a usam e abusam das palavras... autênticos verbos de encher... E porque não mandá-los a todos à tão auto propagandeada volta ao mundo com que o ministro ridiculamente pretendia presentear os espectadores do programa. Pobre país que estás, pedinte ficarias...

Acontecimento rima com sentimento, neste caso com a sua ausência... Acontece que nem sempre apetece...
Mas, como em muitos outros casos da vida, sempre que a vida acontece, “acontece poesia...”

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