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CRÓNICA DA CALIFÓRNIA - A viagem íntima de uma voz açor-americana
Por Diniz Borges

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O conceituado poeta americano do século vinte, Robert Frost, afirmou algures que a poesia é um olhar e um som arejado. Daí que ler a palavra e ouvir os sons de um novo livro de poesia recentemente publicado em português no estado da Califórnia seja razão de júbilo. Esse novo livro é um conjunto de poemas escritos ao longo das últimas três décadas pelo conhecido dentista-cirurgião, e activista cultural na comunidade portuguesa do norte da Califórnia, Décio de Oliveira. Com o título Pó: Poemas de Machado Ribeiro, pseudónimo utilizado pelo autor durante muitos anos, este é, indubitavelmente, um contributo interessante para todos quantos ainda acreditam no poder da poesia e na continuidade da escrita criativa em língua portuguesa nos Estados Unidos.

Um livro que marca o percurso de um homem amante das letras, e da arte em geral, Pó transporta-nos para o íntimo de alguém que encontrou na sublimidade da poesia um escape para os seus desassossegos. É que neste livro existem alguns dos temas que sempre afligiram os artistas: o amor, a solidão, a religião e a morte. Ao longo desta colectânea sente-se a voz gritante do poeta que se debate com toda a existência humana e questiona alguns dos dilemas que marcam, desde sempre, a humanidade. Está patente neste livro, que para Décio de Oliveira, tal como para Edgar Allan Poe o poema não é uma comodidade, mas sim uma autêntica paixão.

Utilizando várias formas de poesia, desde o soneto à poesia livre, Décio de Oliveira capta-nos para o interior de uma voz que ora está confortada com o seu mundo, ora está em pé de guerra, bradando o desejo de amar mais, viver mais, ser mais. Olhando para a vida como um processo doloroso, o poeta lembra-nos que tudo o que vive sofre, que o sofrimento é parte do percurso humano, desta nossa jornada pelo planeta: “Viver é sofrer, quem não vive não sofre, sofro porque vivo e vivo p’ra sofrer”(pg. 8). É esta angústia, marcante em momentos de dor do poeta que estão manifestamente patentes em todo este livro. Nesta colectânea, a amargura justaposiciona-se com a utopia, não como aspiração de viver uma vida incoerente com o realismo alcantilado do quotidiano, mas como apetência para metamorfosear esse quotidiano. É que para este poeta a utopia passa por assumir as realidades de um mundo cada vez mais cheio de amarras com as quais há que abalroar. Daí que num grito de dementação o poeta nos diga:”“que bom seria se a gente/ pudesse varrer da mente/ ou por no inconsciente/ as tragédias do passado/ e viver descontraído/ sem relembrar o perdido/ dar mesmo por esquecido/ o trilho do nosso fado” (pg. 17).

Como se disse, um dos temas recorrentes desta colecção é a solidão. Quer a solidão tratada de caras como num dos poemas mais extensos e mais marcantes deste livro, Abandono,: “Anoiteceu. A solidão passou à minha porta, parou, entrou. No abandono do silêncio, a alma é morta”(pg. 98). Quer nos múltiplos poemas em que a solidão está, indirectamente, omnipresente. É a solidão que o artista procura, porque sem ela não pode criar, e que muitas vezes se converte no único sítio em que, embora sofrendo, pode subsistir ao mundo que o rodeia e porque não, ao mundo que ele também ajudou a criar. É a solidão que vem com a morte dos que um dia fizeram parte do seu mundo físico, dos amores que já não são, dos tempos que foram transfigurando a voz do poeta, e da resignação perante um cosmos cada vez mais frio e menos apelativo. A solidão está nesta colectânea de poemas não como acto de desespero, embora haja momentos de enfurecimento, mas como símile de uma universalidade que necessita dessa fuga para persistir.

Um livro extremamente íntimo, porque discerne alguns dos momentos mais importantes da vida do poeta, do seu mundo, dos dilemas que lhe subordinam a alma, das suas vivências mais intrínsecas. Esta colectânea é, como escreveu o meu colega José Luís da Silva, numa nota incluída no livro (e ele também poeta da diáspora) um exemplo do: “homem apaixonado e exuberante” que efectivamente é este Décio de Oliveira. Este emigrante da ilha de S. Miguel que desde 1957 faz da Califórnia a sua terra. Este homem cuja poesia, tal como afirmou o Professor Doutor Fernando M. Silva, num texto introdutório é: “simples e complexa, espontânea e meditada, suave e explosiva, presente e nostálgica, sempre sentida e muitas vezes corada, fazendo transparecer o seu espírito profundamente romântico e saudosista.”

Daí que este seja um livro de poesia, como todos os bons livros de poesia, para se ler e para se contemplar. E é um trabalho que não está circunscrito aos tradicionais poemas da emigração, extremamente marcados, como se sabe, pelo peso da saudade. Neste livro em que o poeta optou, e ainda bem, pela língua portuguesa, aliás não seria ele um cultivador da língua de Camões em terras da Califórnia, estão patentes temas universais e pertinentes para a existência humana. Em boa hora saiu do prelo mais este contributo para as letras portuguesas em terras norte-americanas.

Pó: Poemas de Machado Ribeiro
Portuguese Heritage Society of California, 170 páginas
San José, Califórnia—2002

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