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As Academias do bacalhau e os Rotários
Por dr. Manuel Luciano da Silva

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Gaspar — Viva Compadre. Dormiu bem?

Miguel — Sim, descansei bem, embora o grupo de rotários fizesse muito barulho.

— Mas você também é rotário?

— Pois sou, há mais de 27 anos. E tenho muito orgulho em o ser. Veja que até tenho vinte anos, com cem por cento de presenças a todas as reuniões semanais.

— Vocês têm reuniões semanais? Mas isso não são reuniões demais?!

— Não, depois de nos habituarmos, é uma maravilha. Além disso, os membros dos rotários são profissionais e comerciantes que estão sempre muito ocupados, mas arranjam sempre tempo para pertencer activamente à maior organização social do mundo!

— Quantos rotários e clubes existem no globo?

— Como lhe disse e repito, os Rotários Internacionais são a maior organização mundial. Existem presentemente um milhão, duzentos e quarenta e três mil, quatrocentos e trinta e um rotários. O número de clubes já é de sete mil duzentos e vinte e nove, dispersos por cento e cinquenta e dois países.

— Mas isso é uma organização enorme. É preciso muita disciplina para manter tantos membros e tantos clubes integrados funcionalmente.

— Disciplina e rigor são as palavras-chave. Os rotários têm regras que os membros das nossas Academias do Bacalhau não aguentavam. Eram logo expulsos, ou por não assistirem às reuniões ou por não pagarem as cotas... Um rotário que falte a três reuniões consecutivas é logo expulso do clube.

— Mas existe alguma sede central onde tudo é concentrado?

— Sim, senhor. Em Chicago, onde nasceu a ideia dos Rotários.

— Quem teve a ideia de criar os Rotários?

— Foi um advogado de nome Paul Harris que na noite de 23 de Fevereiro de 1905 reuniu com três colegas para criarem uma organização de homens de negócio. Passaram a reunir-se uma vez por semana em casa de cada um e foi daí que nasceu a ideia do nome da organização dos Rotários, porque as reuniões passaram a ser rotativas nas diferentes casas dos sócios.

— Curioso! Mas quais eram os objectivos dos Rotários para que se viessem a tornar a maior organização social do mundo?

— Não eram só comes e bebes, com Gaviões de Penacho, lhe garanto! Os objectivos dos Rotários são Humanistas e Humanitários.

— Que é que isso quer dizer?

— Foi o Paul Harris que traçou os mandamentos dos Rotários. Encorajar e estimular a fazer bem ao próximo, não só nas comunidades em que os rotários vivem, mas também universalmente. Manter e desenvolver melhores actos profissionais e de negócios. E, sem partidos políticos ou religiosos, procurar desenvolver melhores entendimentos entre os povos e as nações todo mundo.

— Mas esses também são os objectivos das nossas Academias.

— São semelhantes nos objectivos humanitários, mas nos humanísticos há muita diferença. Além disso, as nossas Academias concentram-se só no grupo português, enquanto os Rotários são universais. Os directores das nossas Academias deviam prestar muita atenção ao funcionamento dos rotários principalmente como organização internacional.

— Não compreendo a sua insinuação.

— Não é insinuação nenhuma, nem sarcasmo. Se os objectivos das nossas Academias são humanitários, falta-lhes muito de humanístico. Bom, mas este aspecto é assunto para conversarmos noutra ocasião. O que eu queria agora era pôr ênfase num assunto que me parece premente e da maior importância, que é necessário resolver o mais depressa possível.

— Oh homem, deite cá para fora. Eu gosto da sua franqueza e firmeza, e porque não dizê-lo, da sua convicção.

— E sabe porquê? Porque eu realmente gosto dos objectivos e da confraternização que as Academias proporcionam aos seus sócios, não só regionalmente mas também universalmente. Se eu não gostasse do espírito das Academias, o meu caro amigo sabe muito bem que nós na nossa Academia do Bacalhau da Nova Inglaterra temos alvará aqui na América para funcionarmos independentemente da Academia Mãe. Mas não é esse o caso. Pelo contrário, eu gostaria de ver mais união, mais centralização, mais coordenação e porque não dizê-lo mais responsabilidade de cada Academia para com o total de todas as Academias.

— E como é que isso se consegue?

— A Academia Mãe tem tido à sua frente homens muito dedicados e abastados. Eles têm gasto muito do seu tempo e do seu dinheiro a promover e a manter o protocolo das Academias, em viagens longas, principalmente nos baptismos das novas Academias.

— Quer que se crie um fundo para essas despesas?

— Isso mesmo. Todas as Academias têm que contribuir com uma cota anual para cobrir essa despesa e outras. Vejamos. Cada Rotário paga ao seu clube cem dólares por ano. Mas destes cem dólares, oitenta e cinco vão para a Direcção Geral dos Clubes dos Rotários Internacionais para uma variedade de despesas, tais como bolsas de estudos, campanhas internacionais de saúde, como por exemplo vacinas para se acabar com a poliomielite na superfície da terra, etc.

— Mas nós só temos trinta e cinco Academias. Os Rotários têm sete mil e duzentos clubes. As nossas cotas por cada Academia tinham que ser mais altas, não é verdade?

— O Compadre está quase rotário... Caberia a cada Academia uma cota de duzentos, trezentos ou até quinhentos dólares por ano para se criar um fundo para despesas gerais necessárias para o bom funcionamento universal das Academias. De contrário, quando morrerem os carolas, os Directores da Academia Mãe, as outras Academias também não durarão muito mais tempo... e isso seria uma tragédia. Devemos evitar esse prognóstico!...

— Como é que a Direcção Geral dos Rotários mantém mais de um milhão de membros informados e unidos?

—Boa pergunta. Publicando todos os meses uma revista pela qual todos os membros são informados das actividades dos outros clubes e até de novas campanhas para se angariar fundos, ou planos de acção a desenvolver nas comunidades locais.

— Mas nas nossas Académias não temos nenhuma publicação emanada da Direcção Geral.

—Pois não, e isso faz muita falta. É absolutamente necessária. Tem havido várias publicações feitas por Academias individuais, muito bonitas, realizadas com muito esforço, mas isso não serve o bem comum de todas Academias.

— Mas a publicação duma revista mensal custa muito dinheiro.

— Não é preciso ser uma revista feita a cores. Para começar basta um Boletim, tipo carta, de quatro páginas, com informações sobre a Fundação das Academias do Bacalhau, das várias outras Academias, explicação de regulamentos, de várias propostas que já foram aprovadas nos vários congressos, etc. Há uma grande necessidade de uniformidade na informação entre todas as Academias. Por outro lado, as várias Academias podiam escrever cartas ao Editor do Boletim sobre diversas ideias, para se criar um fórum.

— Já que fala em fórum, não seria ideal a Academia mãe ter uma página na Internet?

— Isso já devia de existir há muito tempo. A nossa Academia do Bacalhau na Nova Inglaterra já tem uma página na Internet. Aqui está a chave para ela.

http://www.academyofcodfish.com/

A comunicação é muito importante para a vivência e desenvolvimento do espírito das Academias do Bacalhau.

— Compadre, vamos dar o nosso passeio matinal. Dizem que aqui em Ponta Delgada há igrejas muito históricas.

— Boa ideia. Sigamos.

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