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CRÓNICAS
INTERVALO das PALAVRAS - Diário em letra cursiva
By João Martins
Domingo 3 Novembro 2002, 15:27 PST
Não sei porquê, mas sempre tive a sensação de que esta palavra deveria ser escrita em letra corrida, cursiva, manual, íntima, por supor que ela carrega em si todo um simbolismo muito pessoal e personalizado, quase uma fotografia do escriba sem revelar os traços fisionómicos, simultaneamente revestida de uma imagem de quase secretismo, que terá tanto de escondido como revelador, isto a acreditarmos que o tipo de letra terá sempre muito a ver com o seu autor, a sua personalidade, o seu estado de alma e, já agora, de corpo...
Hoje surgiu-me de repente a ideia (que pontualmente pensava ser apenas de adolescentes) de escrever um diário, como no tempo em que aqueles escreviam todos os dias páginas e páginas que mais pareciam um espelho, usavam cadernos e livros com cadeados a sete chaves (mas que qualquer um conseguia ler), escondiam da leitura dos mais curiosos só a revelando aos amigos mais chegados, e fazendo algazarra e cenas de dor quando alguém o desvendava sem autorização prévia!...
Voltar a escrever um diário? Ideia boa, tola ou discutível? Decidi perscrutar as motivações mais ou menos inconscientes, ou supostamente escondidas com alguma intencionalidade, maldade ou gozo secreto, que me tinham despertado para esta ideia que, de momento, continuo sem saber como a classificar. Metodicamente alinhei algumas possíveis razões: Por uma vontade ou apetência de perenidade pós-viagem, monolíticos de papel, tinta e algumas ideias que se tornem mais ou menos perenes, certos de que o fim está no horizonte e queremos manter algo vivo e presente, tantas vezes de forma desesperada, a todo o custo?
Para salvaguarda de uns tantos arquivos que o ‘hard drive’ de um cérebro em contínuo desgaste já tem dificuldade de manter activos, com problemas acrescidos na tentativa de serem abertos quando queremos, enquanto só realmente se dispõem a tornar-se presentes e se desnudam diante de nós, com algum pudor, apenas quando eles a isso se dispõem?
Por uma pretensa contabilidade de actos ou intenções que se retiveram no papel, de forma a podermos quantificar as boas (ou outras) acções e pensamentos gerados durante um determinado espaço de tempo e assim justificar perante os outros ou nós mesmos, a nossa (in)utilidade? Porque pretendemos que nos folheiem sobre pretextos de organização de um calendário muito pessoal e exótico?... Para tentar encher de história, versejos, poemas ou conjecturas o livro que o meu filho me ofereceu pelo meu aniversário (ontem, dia quente com noite de estufa) e assim retribuir a dádiva, desta vez mais repleta de notas que talvez um dia se revelam úteis (ou talvez não), mas pelo menos cheias dessa boa intenção. Pelo menos ficam!
Mas que coisa essa de chamar diário a um livro ou colectânea de uns textos ou notas normalmente escritas à noite ou, pelo menos, pós-dia; na generalidade dos casos será difícil a alguém escrever, anotar e reflectir um dia que ainda não viveu, pelo que talvez fosse mais lógico chamar a esses apontamentos-descrições de acontecimentos, memórias, sentimentos, reflexões poético-filosóficas, repito, parecerá mais lógico chamar-lhe noitário, quando muito tardário, se com essa descrição quisermos abranger aqueles que revêem nessas escrituras mas, pelas mais variadas razões, se deitam cedo, quero dizer antes da noite, lá para o fim da tarde... ou então os que só o fazem noite alta; mesmo nessas circunstâncias, em lugar de tardiário, seria mais correcto classificá-lo cedário, ou madrugário, sempre que tivesse visto a luz do dia pelas 5 ou 6 da madrugada!...
Dado que comigo se passa nem sempre ter hora certa para escrever sobre mais um dia, depara-se complicação acrescida. Dir-me-ão que tudo estará sujeito à noção que cada um tem do tempo, do seu tempo?
Não se apaga um calendário, onde escrevemos de nós, folhas virgens de um diário, um colo, o primeiro beijo, objecto de carinho e de desejo que nos aviva o fora e o dentro, até à limpidez da hora e à plenitude de um momento, de um passado em cada gesto repetido, instante a instante amado e repartido por aqui, por além…
É um regresso à inocência, à candura de uma história alva, ao prazer dos primeiros passos, do primeiro olá!… ... ... As cores com que pintamos e dão cor às ilusões, não são tintas usadas que o pintor deixou secar; são matizes, são misturas, impressões, tons únicos que ninguém vai imitar.
Para que esta calendarização generalizada em cada passo do relógio não se venha a perder, parece ser imperativo registar e apor a data, dia, mês e ano, a todo e qualquer texto que se presuma assumir como folha de diário; isto para que daqui uns dias, quando eu voltar atrás e reler estas notas, não fique a nadar na confusão, já que por falta de registo não me recordarei que estas notas foram escritas um dia depois do meu aniversário natalício. E para que conste: Amén. Assim seja!
Parece-me que afinal, em simultâneo com a necessidade de não podermos passar sem o tempo, apenas pretendemos atrasar ou impedir que ele nos engula e nos esqueça!
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