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CRÓNICAS
Crónica da Califórnia: as guerras que não precisávamos nem precisamos
By dr. Diniz Borges
Quinta 5 Dezembro 2002, 11:46 PST

Já que as guerras começam nos cérebros dos homens, é nos cérebros dos homens que as defesas da paz se devem construir

Constituição da UNESCO

Na manhã do 11 de Setembro de 2001, muitos de nós, os viciados nas notícias do mundo, ligámos a televisão convencidíssimos que iríamos ver o último capítulo da então desaparecida Chandra Levy. Claro que não seria esse o tipo de notícia que ambicionávamos ver, mas infelizmente, a CNN e os outros canais de informação estavam há meses, desde Julho do mesmo ano, dedicando os seus serviços noticiosos a este caso. Tínhamos tido O.J. Simpson, Tonya Harding e Mónica Lewinski, e em Setembro do ano passado, os canais informativos do sistema de cabo americano, tal como o tinham feito durante todo o verão, davam-nos a Chandra a tempo inteiro.

Daí que, imagens de aviões embatendo contra edifícios, seguidas de edifícios a desmoronarem-se, não era o que se esperava. Os eventos dessa manhã foram muito além de qualquer notícia e do usual e já estragado cliché "wake up call": chamada de atenção. Mas nós, aqui nos Estados Unidos, tínhamo-nos tornado preguiçosos, ignorantes até, e olhávamos unicamente para o nosso umbigo ao ponto de solipsismo. Se havia um mundo exterior, nós não queríamos saber, a não ser quando envolvesse a morte de um linda princesa.

O que ocorreu depois do 11 de Setembro foi uma amalgama de acontecimentos, desde os mais comoventes aos mais incríveis. Houve os que provaram a generosidade e a inteligência de muitos residentes deste grande país e os que afirmaram a arrogância, o perigo de um patriotismo barroco, e a fragilidade da liberdade e da democracia. Muitos americanos reagiram nos primórdios meses após o assalto, com ajuda às famílias das vitimas. Outros compraram livros sobre os islão e tentaram compreender a distinção entre árabes e muçulmanos, entre moderados e fundamentalistas. Em algumas comunidades houve quem tentasse ser solidário com árabes, sikhs e hindus, os quais se viram vitimas de uma vingança alicerçada numa ignorância quase incorrigível. Em várias comunidades as igrejas compartilharam a festa do Ramadão com os mosques e alunos universitários participaram em sessões de esclarecimento. Até parecia que havia uma corrida para, em pouco tempo, se tentar compreender um mundo, o do islão, há muito incompreendido nos Estados Unidos da América e em várias outras partes do globo.

Num ambiente de defesa dos direitos dos cidadãos, e depois de um assalto que prometia

"morte à América", muitos de nós—sem olhar a ideologia—concordássemos com as primeiras reacções do governo: há que combater o terrorismo e fazer com que o nosso mundo, o mundo de todos, esteja mais seguro e mais pacífico. Mas como é que se combate o terrorismo? É que os terroristas, por definição, não possuem os alvos óbvios, tais como: uma capital, edifícios de governo e exércitos devidamente identificados. São, essencialmente, guerreiros sem uma pátria, e neste caso sem uma zona geográfica definida, clara e inequívoca. Tal como emergiu, os responsáveis pelas atrocidades de 11 de Setembro vieram de várias partes do globo, tais como: Arábia Saudita, Egipto, Somália, Alemanha, França, Indonésia, Inglaterra, Paquistão e Filipinas.

Daí que havia necessidade de um grande esforço das forças de espionagem para culminarem com este grupo de terror. Para além de se infiltrar os grupos, de se aliciar alguns possíveis desertores, de se ter grupos de pesquisa em várias partes do globo, havia, acima de tudo, que tentar compreender as raízes do ódio e as condições de pobreza e desespero que nutriram estas forças. Mas isto seria o caminho a seguir se nós aqui nos Estados Unidos quiséssemos uma autêntica "guerra ao terrorismo".

Infelizmente, o que acabamos por ter foi algo bastante diferente. Primeiro, tivemos uma guerra contra o Afeganistão. Embora a comunidade internacional, e os cidadãos de consciência, não estejam de luto porque os horripilantes Talibãs já não estão na cena política, ninguém sabe ao certo o que é que a dita guerra conseguiu. Estarão os lideres do Al Qaeda mortos ou simplesmente dispersados? Será que os grupos estão abolidos ou havia independência suficiente para se reagruparem em outras partes do globo? É que, se os objectivos eram abolir o terrorismo, esta guerra não teve o sucesso que o poder em Washington, insistentemente, apregoa.

E o Afeganistão, será que está melhor do que há uma ano? As notícias dizem ao contrário. Fontes independentes afirmam que a fome alastra-se por todo o território, os guerreiros de vários grupos étnicos defrontam-se constantemente, e a maioria das mulheres ainda tem receio de usar roupas menos tradicionais. Mais, um número indeterminado de civis—entre 500 a 5000—morreram vitimas do conflito. Pelo que parece o que se ganhou do conflito afegão foi a "consolação" de responder à violência com mais violência.

Porém, pelo menos no Afeganistão, os nossos lideres em Washington, estavam ainda, ostensivamente, lutando contra o terrorismo. Entretanto e por razões desconhecidas para o resto do mundo, incluindo a vasta maioria da população americana, esse projecto, a luta contra o terrorismo, acabou. O grupo Al Qaeda poderá estar a funcionar em três ou quatro partes do mundo, poderá estar a reagrupar-se, poderá estar a preparar-se para assaltar mais cidadãos dos Estados Unidos e do resto do mundo ocidental, mas para onde estão viradas as atenções da administração de Bush? Para o Iraque, como se sabe.

E poder-se-á perguntar? Porque não a Alemanha, onde dizem os peritos algum planeamento do 11 de Setembro ocorreu, ou a Arábia Saudita, de onde vieram 15 dos 19 terroristas? Ou então se a ideia baseia-se em depor líderes mundiais que possuem armamento bélico de destruição maciça, porque não o Paquistão, a Índia, Israel, ou a Coreia do Norte? E não existem quaisquer provas sobre qualquer ligação entre Osama bin Laden e Saddam Hussein. Apenas se sabe que ambos se detestam. Mas como sempre, na política dos

States dos últimos anos, nem o primeiro alvo foi conseguido e já há mais inimigos no horizonte. Aliás, dá a impressão que esta administração sabe que a guerra ao terrorismo é invencível, pelo menos com as tácticas até agora usadas, estando inquieta para se mudar de assunto, ou pelo menos de adversário.

Apesar de não se saber ao certo os objectivos da política estrangeira desta administração, se estão alicerçados só em petróleo, se acompanhados pelo desvio que se quer dar às mudanças internas do país, se uma fúria do complexo de Édipo deste presidente. Sabe-se sim que a mesma política jamais tornará a América e os cidadãos americanos mais seguros. A guerra no Afeganistão, amalgamada com o apadrinhamento que George W. Bush tem dado ao criminoso de guerra Ariel Sharon em Israel, já convenceu muitos muçulmanos, em várias partes do globo, que as suas vidas têm pouquíssimo valor para os lideres norte-americanos. Uma invasão ao Iraque empedernirá a impressão que os Estados Unidos perseguem o seu próprio Jihad — contra o mundo muçulmano.

Com estas políticas devastadores é quase certo que, uma geração de jovens muçulmanos em Riade, Bagdade, Cairo ou Hamburgo, facilmente será seduzida para se tornar mártir, matando ainda mais cidadãos inocentes.

É pena que nenhuma das figuras da cena política estadunidense, e até mesmo da Europa, como se viu recentemente pela prostração da NATO, tenha a coragem de enfrentar esta máquina de destruição.

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