Os professores de Português dos Estados Unidos e Canadá parecem ter chegado à conclusão que “não vale a pena continuar a pedir esmolas a Lisboa” para o ensino do português junto das comunidades na América. Reunidos no XII Encontro de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá (Todos), que decorreu em Somerset, New Jersey, de 16 a 18 de Abril, os professores voltaram a criticar o governo de Lisboa pelo seu “desinteresse” no ensino do português nas comunidades fora da Europa, decidindo desta feita iniciar um novo caminho na expansão e manutenção da língua e cultura na América do Norte que passa pela sua mobilização e união.
Numa co-organização da Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá e do grupo “Todos”, cerca de uma centena professores, directores escolares, pais, alunos e outros interessados nesta temática reuniram-se pelo décimo segundo ano consecutivo neste Encontro cujo objectivo principal é sempre discutir o ensino do português na América do Norte junto das comunidades luso-descendentes. Este ano o tema era “Universalidade Lusófona”. Nos Estados Unidos existem cerca de 80 escolas comunitárias organizadas por associações, igrejas e até grupos de cidadãos, onde aprendem a língua portuguesa mais de 4.500 alunos.
Apesar de constituírem o único meio de transmissão do português e ajudarem à preservação da cultura lusa aos filhos de emigrantes portugueses, cabo-verdianos e até brasileiros, estas escolas não têm tido qualquer apoio, quer monetário quer ao nível de materiais didácticos das autoridades oficiais portuguesas, o que tem motivado um rol de queixas constantes por parte das comunidades junto dos vários secretários de Estado das Comunidades e membros do governo que passam regularmente pela América do Norte. Este abandono de anos contrasta gritantemente com aquele que é dado ao ensino da língua na Europa, onde Lisboa investiu só no último ano mais de 40 milhões de Euros, e por isso os líderes comunitários, professores e escolas dos Estados Unidos e Canadá, têm chamado a atenção dos políticos portugueses para esta situação de “descriminação”.
Cansados de esperar, professores, directores escolares e pais concluíram neste XII Encontro que é tempo de deixarem de “pedir esmolas a Lisboa” e de seguirem o seu próprio rumo, como o têm feito nos últimos 40 anos, organizando o seu próprio sistema de ensino da língua portuguesa, construindo os seus materiais e formando os seus professores.
Em declarações à agência Lusa, Alfredo Rendeiro, o coordenador-geral do Encontro, disse que a falta de apoios oficias impediu que muitos dos professores de português dos Estados Unidos e Canadá pudessem participar neste encontro.
“Sabemos que é uma grande despesa para os professores, que têm de pagar do seu bolso a sua participação”, disse. “O governo de Lisboa não nos ajudou rigorosamente em nada”, acrescentou, “nem monetária nem moralmente, ao contrário do governo regional dos Açores, que apoiou generosamente o evento e permitiu que ele se realizasse”.
Alfredo Rendeiro criticou também o facto da Secretaria de Estado das Comunidades e o Ministério da Educação terem”“ignorado” o encontro, uma vez que não enviaram “qualquer representante de Lisboa”.
“Há uma falta de interesse visível do governo português que não quer investir nesta questão da educação da língua portuguesa na América”, disse. “Mas muitas vezes não é o facto de não termos apoio em dinheiro ou em livros que mais nos afecta, mas sim a falta de apoio moral, que nos desmotiva na nossa missão de ensinar e expandir a língua nas nossas comunidades”, acrescentou.
Mesmo assim, o coordenador-geral, que é também presidente da Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá, mostrou-se optimista na continuação destes encontros, pois eles”“são importantes não só para a sua actualização pedagógica, mas também como a única forma de convívio entre os colegas professores de Português da América”.
Alfredo Rendeiro mostrou também a esperança de que a aprovação do exame SAT II venha trazer à língua portuguesa “a dignidade e a importância que ela merece” e “motivar os nossos jovens na sua aprendizagem”. “A ligação dos jovens luso-descendentes a Portugal ainda se faz através da língua”, acrescentou.
Graça Castanho, a actual Conselheira para os Assuntos do Ensino do Português nos Estados Unidos e Bermuda, uma das conferencistas no XII Encontro, disse aos congressistas que se esperam mudanças neste sector, mas preferiu dar ênfase à própria dinâmica da comunidade, que tem dado provas mais que suficientes de ser capaz de organizar escolas e continuar a transmissão de legado linguístico-cultural nas novas gerações. Nesse sentido, fez um apelo para que os intervenientes neste processo educativo se unam num esforço que “deve ser de todos” de modo a que a língua portuguesa não deixe de ser ensinada junto dos luso-descendentes.
Embora não prometendo apoios concretos — que não dependem directamente de si, como fez questão de frisar, mas sim dos Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Educação —, a Conselheira pôs-se à disposição de todas as escolas comunitárias para fazer acções de formação e outras actividades de forma a melhorar a qualidade do ensino do português ministrado nestas instituições.
Como tem sido habitual nos últimos anos, estes XII Encontro incluiu conferências e oficinas de trabalho destinadas a professores, pais e alunos, e foi aberto oficialmente pelo cônsul de Portugal em Newark, Nova Jérsia, Paulo Pocinho, que fez questão de, “em nome do governo”, agradecer “o trabalho feito pelas escolas comunitárias na transmissão às novas gerações da língua e cultura portuguesas”. O diplomata fez ainda um apelo a todos para que “não percam o ânimo” e continuem a cumprir esta missão.
Na sessão plenária intervieram Graça Castanho) Conselheira para o Ensino do Português nos EUA), que tratou o tema “A Mobilização das Comunidades em torno do ensino da Língua e Cultura Portuguesas”, e Fátima Sequeira (professora catedrática da Universidade do Minho), que discursou sobre “Novas Concepções do Ensino de Português”. Esta última intervenção gerou aplausos da assistência quando a conferencista acusou Portugal, e os seus diplomatas espalhados pelo mundo fora, de fazerem pouco em defesa da língua portuguesa.
“A defesa da língua em Portugal não está bem, porque não há uma política da língua”, disse. Nesse sentido, Fátima Sequeira, ligada à formação de professores na Universidade do Minho, defendeu que “a defesa da língua portuguesa passa por uma parceria com o Brasil e os outros povos de expressão portuguesa” uma vez que hoje em dia a lusofonia “é unilateral”.
“Contrariamente ao que se passava há alguma anos atrás”, disse,”“hoje em dia recebemos a lusofonia de outros países, por isso a língua portuguesa é uma língua viva, que se vai transformando”. Por isso, Fátima Sequeira defendeu uma “diplomacia da língua, onde todas as componentes culturais se interliguem”.
No que diz respeito ao ensino do português nos Estados Unidos, e particularmente nas escolas comunitárias, a conferencista apelou aos professores para que “modernizem as escolas, criem bibliotecas e mantenham a ligação afectiva a Portugal”, pois só assim será possível continuar a “interessar os luso-descendentes pela língua portuguesa”.
“Só aprendemos uma língua se estivermos ligados a ela emocionalmente”, disse Fátima Sequeira, frisando que nesta missão todos têm responsabilidades pois, segundo afirmou, “o ensino de qualquer língua faz-se sempre muito do voluntariado”.
Nas oficinas de trabalho dedicadas aos professores foram tratados dois temas: “Os Adolescentes e a Escola”, pela Dra. Teresa Medeiros, da Universidade dos Açores, e Dr. Joaquim Ferreira, da Universidade de Coimbra, onde se discutiram os problemas manifestados pelos adolescentes nas nossas escolas; e “O Papel da Literatura Infanto-Juvenil no processo de aprendizagem do português como língua estrangeira”, a cargo da Dra. Graça Castanho.
Nestas sessões os professores tiveram a oportunidade de discutir situações reais do processo de aprendizagem no contexto da sala de aula, nomeadamente com a realização de trabalhos práticos, bem como a forma de abordagem e tratamento de problemas trazidos para a escola pelo adolescente e inerentes ao seu processo de crescimento. Nas oficinas de trabalho para os jovens foram tratados os temas “Entre Duas Culturas” e “Quem Sou? De onde venho? Para onde Vou?, e para os pais “Como ajudar o seu filho a ter sucesso escolar”, “Gestão de comportamento em casa e na escola” e “Educar filhos entre dois mundos no século XXI”.
No final do Encontro os pais reconheceram as dificuldades com que se debatem para motivar os seus filhos a frequentarem as escolas portuguesas num horários pós-escolar, reclamando, de forma a criarem uma escola mais atractiva, “mais acções de formação para os professores” que ensinam o português aos seus filhos, a criação de uma rede de intercâmbios entre escolas comunitárias e escolas em Portugal e concursos para promover a cultura portuguesa.
O grupo de pais concluiu ainda que “só com o empenhamento de todos será possível continuar a manter a língua portuguesa viva nas novas gerações”.
Quanto aos jovens, afirmaram nas suas conclusões que o XII Encontro “teve mais aspectos positivos que negativos”, manifestando o seu desejo de continuarem a participar em iniciativas deste género; pediram, contudo, que fossem escolhidos “locais mais atractivos” para a sua realização. Reconheceram ainda que “falar português constitui uma vantagem” na América e que aumenta a sua “auto-estima”.
A palavras aos professores
Luís Castro, professor da Escola de Milford, Massachusetts, com mais 20 anos de carreira, disse ao Mundo Português que o Encontro foi para si sobretudo “uma oportunidade para encontrar colegas e rever amigos”. No entanto, realçou o “valor formativo, na medida em que tivemos conferencistas que nos trouxeram ideias novas e nos deram uma oportunidade de actualizar um pouco os nossos conhecimentos”.
Mesmo assim, Luís Castro diz preferir “as acções e os cursos de formação de vários dias, onde abordaríamos mais áreas do ensino”, pois um dia de conferências, apesar de ser “dentro do possível, muito bom, não é o suficiente para suprir as nossas dificuldades no dia-a-dia na sala de aulas”.
“Gostava que estes encontros durassem mais tempo, mas se não puder ser, pelo menos o fim-de-semana já é muito bom”, concluiu. Sobre o futuro da língua portuguesa na América, Luís castro não se mostrou nem muito optimista nem pessimista. “Com o fim do bilingue, o português vais ser ensinado como uma segunda língua, mas as escolas comunitárias são sempre necessárias para guiar os alunos e lhes darem uma ajuda para eles depois estudarem o português no ensino oficial americano”.
Uma jornada de convívio
Para além de ser uma acção de formação para profissionais do mesmo ofício que procuram actualizar-se nas técnicas pedagógicas do português de modo a responder a um ensino cada vez mais difícil e exigente, estes encontros constituem também uma jornada de convívio entre colegas que raramente se encontram por estarem dispersos pelo país. Este ano, e talvez pelas razões mencionadas em cima pelo coordenador-geral (falta de apoios que pudessem ajudar a baixar o preço de inscrição), a participação de docentes do Canadá, Massachusetts, Connectiut e Nova Iorque foi bastante reduzida. A maioria dos professores presentes era de New Jersey, mas isso não tirou qualquer brilho ao Encontro, dada a grande qualidade dos conferencistas e do interesse dos temas tratados nas oficinas de trabalho.
A comissão organizadora deste XII Encontro, coordenado pelo professor Alfredo Rendeiro e sua esposa, Natércia Rendeiro, está de parabéns, pois conseguiu um equilíbrio entre os trabalhos pedagógicos e a parte lúdica, muito importante em eventos desta natureza.
Alfredo Rendeiro disse esperar que as futuras edições do Encontro possam dar “novo ânimo e novo alento aos colegas para uma participação maciça”, até porque, frisou, “os professores precisam de conviver com outros colegas e actualizarem os seus método no ensino do português”.
“É vantajoso para todos, sobretudo para aqueles que se encontram ligados às escolas comunitárias”, acrescentou.
Elsa Silva: uma mãe preocupada com o ensino da língua portuguesa
Elsa Silva foi uma das mães que participou neste XII Encontro. Foi a porta-voz do grupo dos pais e disse ao Mundo Português ter “gostado muito da experiência”.
“Foi a primeira vez que participei e gostei, pois aprendi coisas novas e foi um bom convívio. Por outro lado, foi bom saber o que é que professores e autoridades portuguesas estão a pensar fazer quanto ao futuro dos nossos filhos, no que diz respeito ao ensino do português, porque há sempre uma barreira muito grande para fazer com que eles aprendam português”.
E justificou com o exemplo de sua casa:
“Para mim é sempre muito difícil levar os meus dois filhos à escola portuguesa, é como se fosse um castigo para eles”, diz.
Por isso Elsa procurou neste XII Encontro algo que a ajudasse a motivar os filhos na aprendizagem da língua. Este Verão diz que os vai levar a Portugal onde vão frequentar, durante um mês, uma colónia de férias.
“Vamos ver se eles se interessam um pouco mais por Portugal, pela língua e costumes, pois acho que isso é muito importante para o seu futuro”, diz.
Elsa é natural de Lisboa e vive nos Estados Unidos desde há 15 anos. É proprietária de uma companhia de limpezas e diz que tem feito tudo para interessar os seus filhos rapazes nas coisas portuguesas. O que nem sempre é fácil porque, conforme nos disse,”“a maioria dos jovens que participam nas actividades das associações são raparigas”.
“Eu não sei se os meus dois vão conseguir acabar a escolaridade portuguesa”, diz visivelmente preocupada.
Mesmo assim acredita que é possível alterar esta tendência se os pais dedicaram mais tempo à educação dos filhos.
“Felizmente a minha profissão dá-me mais tempo para os acompanhar, ir com eles até à escola e fazê-los participar nos grupos de jovens”, diz.
Mas reconhece que não é tarefa fácil interessá-los pela língua e cultura portuguesa. Daí o pedido para que as autoridades dêem mais atenção ao ensino da nossa língua nos Estados Unidos da América.