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Glória de Mello lança CD com serão de poesia, homenagem a Amália Rodrigues
Por António Oliveira
Agosto 2003
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“A poesia não é tão rara como parece.
Na mais ínfima das coisas, a poesia acontece”. (Fernando Vieira)

Glória de Melo, Relações Públicas da TAP e colaboradora desta revista (e de muitos outros jornais de cá e de lá — expressão que ela popula-
rizou na diáspora—, acaba de lançar um CD de poesia intitulado “Linhas — Serão Poético”, projecto que, como se pode ler na capa, “é dedicado à expansão da Língua e Cultura Portuguesa” mas que pretende ser, também, a sua homenagem muito especial a Amália Rodrigues, de quem era amiga íntima e grande admiradora. “Linhas” inclui poemas, textos e canções de poetas e autores portugueses conhecidos, como Fernando Pessoa (Ai que Prazer), Ary dos Santos (Retrato de Amália), Pedro-Homem de Melo (Bailador de Fandango), António Gedeão (Lágrima de Preta), David Mourão Ferreira (Vai Nascer esta Noite), e de outros menos conhecidos residentes nos Estados Unidos, caso de Ilídio Martins, João Martins, Augusto Amador, Manuel Dantas, entre outros, e a própria Glória, ela também poetisa, autora e, neste disco, também cantora em três temas, um dos quais em japonês.

A propósito do lançamento deste CD Mundo Português falou com Glória de Melo que nos explicou as razões do projecto e falou sobre a sua paixão de sempre: a poesia, que a tem acompanhado desde criança. Aliás, ela própria diz, na introdução do disco, que a ideia de gravar um recital de poesia “é um sonho que vem de muito longe! Começou no teatro Dona Maria II em Lisboa, quando recitei um poema de João e Deus Ramos, «O Pavão, Peru e o Galo», que mereceu rasgados elogios de Amélia Rey Colaço. Tinha eu então 4 anos. Depois fui dizendo poesia em Portugal, na Suíça, no Canadá e em outros países onde a minha agitada vida me levou incluindo o Japão...”.
Na concretização deste projecto, diz, duas pessoas foram determinantes: “O dr. Júlio de Vasconcellos, ex-cônsul-geral de Portugal em Newark, que fez questão de incluir-me sempre em espectáculos culturais, e a minha querida e saudosa Amália Rodrigues. A Diva, que privou com os maiores poetas e declamadores do mundo adorava ouvir-me dizer poesia. Por isso este «Serão Poético, Linhas» lhe é particularmente dedicado”.

O trabalho é ainda muito especialmente dedicado a seu pai, já falecido, o poeta e homem do teatro Rodrigo de Mello, e a sua mãe, Margarida Mello, “que me passou o testemunho poético da minha família”.
Gravar um CD de poesia nunca foi um projecto comercial rentável em qualquer parte do mundo, muito menos o será entre as comunidades portuguesas, tradicionalmente avessas à leitura. Glória tem consciência disso e explica que não foi esse o seu objectivo:
“O grande problema que tenho tido até agora é convencer as pessoas a começarem a ouvi-lo. Isto é: decidirem-se a colocá-lo no tocador de CDs do carro, do computador ou em casa. Há a ideia generalizada, (e a culpa é muitas vezes de declamadores que escolhem poemas tristíssimos com fundo de música clássica e dão um ar grave e mórbido até aos seus discos) de que a poesia é algo de muito maçador, inacessível e triste. Ora, o que eu pretendo através deste CD de poesia, muito diferente, é o de transmitir a ideia de que a poesia também pode ser um veículo de boa disposição e bom humor. Dai que incluo Carlos Drummond de Andrade e Augusto Gil. Aliás foi sempre essa a minha obsessão. Daí começar sempre os meus serões com um poema de Fernando Vieira «Aconteceu Poesia». É que a poesia acontece todos os dias, quando estamos alegres ou tristes, quando se ama ou se odeia”.

E continua:
“Ora isto tudo é muito mais está no CD. Porque eu faço sempre uma pequena introdução a cada um dos poemas, de grandes poetas de cá e de lá. E incluo ainda uma canção tradicional japonesa, que a Amália Rodrigues adorava, um fado, o único que sei (ou ouso) cantar «A menina das trancas pretas», que dedico a todos os meus amigos e artistas e fadistas de cá e de lá. E ainda alguns textos poéticos como o do Ilidio Martins e do vereador-poeta Augusto Amador”.
A ideia é proporcionar ao ouvinte a experiência de estar num verdadeiro recital de poesia, comodamente sentado numa sala de teatro a ouvir a declamadora que vai desenrolando os poemas. Graças a uma produção super-cuidada e uma mistura sonora de grande gosto e qualidade, aliada aos atributos comprovados na arte de declamar de Glória, o resultado não podia ser melhor: somos enleados na teia poética e deixamo-nos levar suavemente ao longo destes quase 53 minutos do disco sem dar pelo tempo a passar. Como se fosse um serão. Para isso contribuiu, também, a excelente escolha dos poemas, muito equilibrada, e, claro, a forma de dizer poesia da Glória, tão apaixonada quanto revoltada, tão sentimental quanto fugidia, mas sempre, sempre, e ao longo de todo disco, alegre, viva e natural. É que há uma grande diferença entre ler poesia e dizer poesia. Glória di-la tão delicadamente que parece que a sua voz é um remédio para o coração, de tal forma nos faz experimentar sensações tão diversas e saborosas.
Nesta arte diz-se infuenciada pelo grande mestre, João Villaret, que apenas conheceu “através da rádio, tv, e de discos e gravações” que guarda religiosamente. Quanto a escritores favoritos, foge à questão, pois, como diz, “todos os autores, sejam portugueses, franceses ou de qualquer nacionalidade” a influenciam. Mesmo assim, e “para referência”, tem à cabeceira alguns indispensáveis, caso de “Leha e outras Histórias", de José Rodrigues Miguéis, "A Cidade e as Serras" de Eça de Queiroz, e uma antologia poética de todos os poemas ditos por João Villaret numa recolha de Mário Baptista Pereira”.
Villaret, aliás, é figura omnipresente em toda a sua vida. Ela explica:

“Quando leio um poema, imagino logo se consigo ou não declamá-lo de forma a que o público em geral o entenda. Portanto, no meu repertório evito sempre incluir poemas que têm que ser explicados. Que são poemas extraordinários e profundos, como por exemplo de Engénio de Andrade, que muito aprecio. Além disso, não me preocupo com as tendências políticas dos poetas: neste CD incluo poetas tão distintos como Fernando Pessoa, Ary dos Santos, João Apolinário, Amália Rodrigues, Anteonio Botto, João Teixeira de Medeiros, Pedro Homem de Mello, Eugenio de Castro, Jorge de Lima (A Nega Fulo tem sido o poema mais elogiado), Rodrigo de Mello, e poetas da Proverbo João Martins, Manuel Dantas, Antonio Gedeão, Rodrigo Emílio, David Mourão Ferreira, Tarcísio Lopes, Manuel Bandeira, Manuel Calado, Thomaz Ribeiro, Gonçalo da Câmara Pereira, Herman José, Branca de Gonta Colaço e, é claro, poemas da minha autoria (recomendo o que dedico a Amália e para os gulosos o "Arroz Doce do Amor)”.
E continua: “Dou-lhe um exemplo do que se passou na gravação deste meu CD. Quis incluir o "Cherne" de Alexandre O'Neill porque está muito na moda dado que é o preferido da primeira dama do governo português. Mas, no estúdio de gravação foi o único poema que gerou a pergunta: "mas o que é que este poema quer dizer?". Por isso não o inclui.

Influenciam-me também pensamentos de homens ou mulheres célebres. No CD incluo um de Branca de Gonta Colaço, que é da maior actualidade: "Os tempos estão pior que hostis para a arte. Mas a poesia compensa de todos os que a amam, e ela é que há-de salvar o mundo".

Agora, o objectivo é divulgar o mais possível este trabalho, não só nas comunidades mas também junto dos luso-descendentes. Por isso Glória diz que vai oferecê-lo às escolas, porque “por vezes os meninos e meninas deixam de gostar de poesia porque lhes apresentam poemas para dizer que não entendem, e os assustam”.

E conclui: “Sabe, acredito mesmo nisto: a poesia é que há-de salvar o mundo! O meu lema continua a ser "É bom ser importante. Mas é mais importante ser bom".

Para já, o CD, que está à venda nas lojas portuguesas Tucha e Casa dos Presentes (em Newark, NJ), ou através da autora, e tem tido críticas muito favoráveis na comunidade. Mas para Glória isso não é o mais importante: “Não me sinto à vontade quando recebo muitos elogios. Mas quando me dizem que «A Glória é a própria poesia...», gosto. Os filhos das minhas colegas, por exemplo, pedem aos pais que ponham o meu CD nas viagens longas.. Adoram a "NEGA FULO", e a canção japonesa.

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