ENTREVISTAS
P aul Christopher Manuel é "cientista político", académico respeitado, professor, investigador e autor de vários livros sobre o processo democrático em Portugal e as relações do clero com a igreja na Península Ibérica.
Com um doutoramento em Relações Internacionais e Política Comparada da Universidade de Georgetown, um mestrado em Artes e Ciência Política da Universidade de Boston e um MTS em Religião e Política da Weston Jesuit School of Theology, de Cambridge, o dr. Paul é actualmente professor catedrático no Saint Anselm College em Manchester, NH, e professor associado e director do Centro de Estudos Ibéricos do Minda de Gunzburg Center for European Studies da Universidade de Harvard, em Cambridge; é também director do Institute of International Education’s National Screening Committee para os Fulbright Awards do programa de estudos de Espanha e Portugal.
O dr. Paul Manuel tem o seu nome ligado ao New Hampshire Institute of Politics não só como investigador, mas também como fundador. Foi ele um dos principais responsáveis pela criação deste prestigiado centro de estudos políticos inaugurado em 2002 e estruturado à imagem do Institut d’Etudes Politiques de Paris, onde Paul estudou um ano. Foi um dos recipientes do Fulbright and National Endowment for the Humanities Fellowships e estudou também em Portugal, na Universidade de Coimbra. Dos seus inúmeros trabalhos publicados contam-se entrevistas históricas ao general António de Spínola e Otelo Saraiva de Carvalho; é também autor de artigos na "An Encyclopedia", nomeadamente "António de Spínola", "The Portuguese Revolution" e "Portugal, Political Parties". O seu artigo mais recente, "Religion and Politics in Iberia: Clericalism, Anti-Clericalism and
Democratization in Portugal and Spain", foi publicado na Religion and Politics in Comparative Perspective: The One, the Few and the Many (Cambridge University Press, 2002); actualmente trabalha na co-edição de um livro que analisa o impacto da entrada na União Europeia em Portugal e Espanha nas áreas das relações internacionais, política interna e sociedade civil.
Paul Manuel é natural de Cambridge, MA. O pai, Joaquim Manuel, nasceu também nos Estados Unidos, filho de um casal de emigrantes — Maria Rosa Santos e Joaquim Manuel, naturais do concelho de Santarém, que emigraram, separados, em 1919 para Rhode Island, onde haveriam de se conhecer e casar. A mãe é uma italo-americana. Os avós deixaram Portugal em busca de uma vida melhor, mas os primeiros tempos em New Bedford, MA, foram muito difíceis. Talvez por isso, e depois de arranjar trabalho estável, começou a ajudar outros portugueses, indo esperá-los às docas, e mais tarde ao aeroporto, arranjando-lhes trabalho e no processo de legalização. De tal modo que ficou conhecido pelo—"mayor de Cranston, RI". Foi também um dos fundadores do Cranston Portuguese Club, associação onde costumava levar o pequeno Paul.
Entrevista de António Oliveira
Mundo Português — Os seus pais nasceram já nos Estados Unidos mas você fala correctamente português. Onde aprendeu?
Paul Manuel — Com os meus avós, com quem passei grande parte da minha infância. A única linguagem na casa era o português. Também fiz dois cursos em Portugal, um na Universidade de Lisboa e outro na de Coimbra. Além disso também passei algum tempo no Brasil, com a família.
MP — Foi, portanto, educado nas tradições e na cultura portuguesa?
PM — Sim. Passávamos sempre o Natal em Rhode Island com os meus avós, que faziam festas com os amigos portugueses. O meu pai, que estudou música no Conservatório de Boston (onde conheceu a minha mãe), tocava acórdeão e nós dançávamos ("É uma casa portuguesa, com certeza..."). A minha infância está repleta de memórias dessas noites de dança e canções, em que acordávamos os amigos e vizinhos. Mas também de comidas portuguesas como o caldo verde, os sonhos, pastéis de bacalhau, de nata, coscorões, etc.
MP — Quando foi a Portugal pela primeira vez?
PM — Foi em 1976, tinha eu 17 anos. Desde então tenho lá ido todos os anos. O meu avô levou-me à sua aldeia, Xartinho, e apresentou-me os amigos e resto da família. Tenho primos nas Caldas da Rainha e muitos amigos em Porto de Mós. Em 1991 passei um ano na Universidade de Coimbra com uma bolsa da Fulbright, em trabalho de investigação para a minha tese de doutoramento. A minha esposa, Anne
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| Anne Marie Cammisa com a filhado casal, Maria Teresa Manuel, e o pai de Paul, Joaquim Manuel |
Marie Cammisa, é descendente de italo-irlandeses. Tem um doutoramento em American Government e é actualmente professora na Universidade de Suffolk, em Boston.
MP — A sua ascendência portuguesa influenciou a sua maneira de estar na vida e a sua obra?
PM — Sim, eu tenho muito orgulho nas minhas raízes portuguesas. Quando era criança os meus avós ensinaram-se tudo acerca do "velho" país e eu comecei a interessar-me por todos os aspectos relacionados com Portugal, o povo, a cultura e a política. Lembro-me de ter ficado grudado à televisão em 1974 ouvindo as notícias sobre o golpe de estado em Lisboa. Eu ficava completamente fascinado pela política e queria aprender o mais que pudesse. Foi quando trabalhava no meu doutoramento, na universidade de Georgetown, que decidi dedicar a minha carreira ao estudo de Portugal. Foi uma maneira de combinar a minha vida profissional com os meus interesses pessoais e posso dizer que tem sido uma experiência maravilhosa. Cada novo projecto permite-me descobrir mais coisas sobre Portugal e escrever e ensinar sobre elas. Eu adoro Portugal e acho que é um país muito interessante, por isso o meu trabalho é sempre excitante.
MP — Parece assim que o curso de Política surgiu naturalmente na sua vida. Era isso que queria ser quando era criança?
PM — Sim, eu sempre gostei muito de viajar e aprender línguas. Já vive e estudei em vários países, nomeadamente a França, Alemanha, Brasil, Paquistão e Índia. A minha atracção e entusiasmo pela política, pelos povos e pelas relações internacionais fez com que a decisão de prosseguir um doutoramento nesta área fosse natural e fácil. A minha avó costumava dizer-me que eu era como os descobridores portugueses, porque gostava muito de viajar. Até me deu uma cópia da primeira edição dos Lusíadas. A verdade é que todas estas experiências me permitiram expandir horizontes e conhecer novos mundos, novas culturas e novos povos.
MP — E como surgiu o mestrado em Religião e Política?
PM — O mestrado em Estudos Teológicos (especialização em religião e política) da Weston Jesuit School of Theology in Cambridge surgiu da necessidade de aprofundar o meu conhecimento sobre a forma como a fé religiosa de um povo pode influenciar o seu comportamento político. Um dos resultados deste curso foi a
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| Com familiares em frente à casa onde os seus avós nasceram, no Xartinho (Santarém) |
publicação de um trabalho sobre as aparições marianas de Fátima e o comportamento político subsequente em Portugal. Foi publicado como ‘workin paper’ pelo Centro de Estudos Europeus da Universidade de Harvard e pode ser consultado em http://www.ces.fas.harvard.edu/working_papers/manuel.pdf. Interessa-me explorar questões como de que forma consegue a fé ajudar, ou não, a segurança regional e a estabilidade política. Esta aproximação tem um valor comparativo muito vasto. Interessa-me não só a teoria, como os factos políticos no terreno.
MP — A religião e a política integram-se?
PM — Não, não muito bem. Há sempre o perigo do extremismo quando as pessoas tentam impor a sua fé num regime político. A história dá-nos exemplos disso. No entanto, há coisas boas quando os valores religiosos como o amor, respeito, a dignidade e o perdão influenciam o comportamento dos indivíduos na sociedade. Esta é uma forma da religião influenciar a vida pública. Para o bem, a religião pode ensinar humildade e respeito pelo próximo; para o mal, as pessoas podem levar os ideiais religiosos ao extremo pensando ser isso que Deus quer.
MP — Acha que a ligação da religião ao estado entrava o progresso dos países? E nos direitos humanos, por exemplo, joga a favor ou contra?
PM — Essa é uma questão complicada. Por um lado é um desejo natural as pessoas tentarem definir a sociedade política de acordo com o que pensam ser os desejos de Deus para a humanidade. Por outro, é muito difícil, senão mesmo impossível,
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| Na inauguração do NHIOP |
saber o que Deus pretende. Nós devemos evitar o perigo dos extremismos, que podem limitar o progresso e mesmo violar os direitos humanos. O fundamentalismo religioso pode ser muito problemático, como vimos no 11 de Setembro e continuamos a assistir um pouco por todo o lado.
MP — Os seus livros são estudos político sobre Portugal, mas também do ponto de vista religioso. Isso deve-se também à sua ascendência portuguesa?
PM — Sim, os meus avós levaram-me a Fátima quando era jovem. Uma coisa que sempre me interessou foi saber qual o papel da fé religiosa de um povo na vida política de uma nação. É interessante verificar que Fátima, por exemplo, tem sido tratada por alguns historiadores e cientistas políticos como um caso da reacção popular ao modernismo, sem outras consequências. Nesta perspectiva, Fátima não era mais do que uma ferramenta simbólica de resistência conservadora à Primeira República que lançou as bases para a ditadura salazarista. Os meus estudos, porém, sugerem que os investigadores devem estudar as consequências desta larga forma de religiosidade popular mais globalmente, não como uma realidade teológica, mas também política.
Fátima tem exercido um impacto político na política portuguesa desde 1917. À altura das aparições, a percentagem de portugueses católicos rondava os 99 por cento. Com o tempo, a maioria desta população veio de facto a acreditar que Maria apareceu em Fátima e essa crença tem desde então contextualizado a religião popular em Portugal e influenciado decisões políticas e outras actividades do país. Pondo de parte a questão de saber se Maria apareceu ou não
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| No Xartinho, em 1983, com uma tia |
em Fátima, é aceitável acreditar que a história das aparições se tornou uma fonte importante da vida política portuguesa e um dos pontos fortes do activismo político conservador durante o século XX. A conclusão da minha tese é que as aparições de Maria desempenharam um papel importante na vida política do país na medida em geraram discussões sérias.
MP — Tem também publcaido um livro sobre o impacto da entrada de Portugal na União Europeia. Como surgiu ele?
PM — Eu fui um dos organizadores da conferência "From Isolation to Integration: 15 Years of Spanish and Portuguese Membership in Europe", que teve lugar em Novembro de 2001 no Minda de Gunzburg Center for European Studies at Harvard University. Esta conferência, e o livro que se lhe seguiu co-editado com o meu colega Sebastian Royo, examina o processo de integração e como ele afectou o desenvolvimento político, económico e social em Portugal e Espanha nos últimos 15 anos. Durante muitos anos, Portugal e Espanha concentraram as suas atenções nos seus impérios coloniais mais do que nas relações com os vizinhos europeus. Depois, os ditadores Salazar e Franco nunca se interessaram em desenvoler as relações com os estado europeus democráticos do pós-guerra. Como consequência deste cenário de desenvolvimento histórico, estes dois estados ibéricos permaneceram isolados do resto da Europa durante muito tempo. Esta realidade política só começou a mudar com as transições democráticas ocorridas nos dois países nos anos 70 com os governos ansiosos por atingirem a estabilidade política e a prosperidade económica dos seus vizinhos. Depois da entrada na União Europeia, em 1986, este sonho pode ser transformado em realidade. No entanto, e apesar dos progressos impressionantes dos últimos anos — a média do rendimento per capita de Portugal cresceu dos 56 por cento para os 75 por cento, enquanto a da Espanha atingiu os 83 por cento —, a verdade é estes
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| Na Universidade de Harvard |
dois países ibéricos ainda têm um longo caminho à sua frente para atingir as médias europeias.
MP — Escreveu também sobre António de Spínola. Conheceu-o?
PM — A minha tese de doutoramento (que depois se tornou no meu primeiro livro), examina o processo democrático em Portugal. É interessante, pois os meus professores nunca acreditaram que Portugal viesse a tornar-se uma democracia como a França ou Inglaterra, dadas as suas particularidades religioso-culturais e económicas. No decurso das minhas investigações passei um ano em Coimbra no Centro de Documentação 25 de Abril. Tive a oportunidade de entrevistar mais de 20 capitães de Abril para esse meu trabalho. Estas entrevistas incluem militares de ambos os lados do espectro político: os presidentes Costa Gomes, Ramalho Eanes e António de Spínola, os primeiro-ministro Vasco Gonçaves, Otelo Saraiva de Carvalho, Marques Júnior, Rosa Coutinho, Pezarat Correia, Mario Tomé, Vitor Alves e Vasco Lourenço. Escrevi dois livros sobre este tópico: "Uncertain Outcome: The Politics of the Portuguese Transition to Democracy (University Press of America, 1995), e "The Challenges of the Consolidation of Democracy in Portugal, Political, Economic and Military Issues, 1976-1991) (Praeger, 1996). Conclui que muitos factores contribem para a consolidação das democracias e que os ideais da élite política e militar de um país são dos mais importantes.
MP — Mantém contactos com os académicos em Portugal?
PM — Sim, tenho tido a colaboração de muitos investigadores portugueses ao longo dos anos, incluindo António Costa Pinto, Director do Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa e João Carlos Espada, Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.
MP — Sei que recentemente adoptou uma criança indiana. Essa decisão teve algo a ver com a sua ancestralidade?
PM — Escolhemos a Índia por várias razões. Uma delas é que eu e a minha esposa achamos que este país tem muitas semelhanças com Portugal, nomeadamente no que diz respeito aos valores da família e à gastronomia. Por outro lado, fomos inspirados pelo exemplo de Madre Teresa de Calcutá. No orfanato de Pune, a assistente social disse-me que a criança era indo-portuguesa de Goa. O interessante é que ela desconhecia que eu era também descendente de portugueses.
MP — O que é mais importante para si: ensinar ou escrever e investigar? Quais são os planos profissionais num futuro próximo?
PM — Ensinar é a minha paixão. Eu gosto dos desafios a que estou sujeito numa aula e adoro ajudar os estudantes a aprenderem sobre ciência política de modo a atingirem altos níveis de maturidade intelectual. Por outro lado, gosto muito de estudar política e de comunicar esse entusiasmo aos meus estudantes. O centro dos meus estudos é o processo de democratização de Portugal, mas estou também interessado nas relações entre a religião e a política. Tenho tentado combinar, nas minhas investigações, a minha paixão por esta área, o meu gosto por ensinar e a minha curiosidade intelectual.
Tenho sido director do Departamento de Estudos Políticos do Anselm College nestes últimos 10 anos. Em 1993 reestruturei todos os cursos e muitos novos foram adicionados ao longo destes anos. Os meus planos são continuar a expandir este departamento, que considero a minha realização pessoal mais gratificante no Anselm College. A minha contribuição para o NHIOP está directamente relacionada com o meu entusiasmo pela política e a minha experiência pessoal como estudante em outros países. É espantoso ver como este instituto cresceu e se afirmou no estudo das ciências políticas do país e o número de pessoas que envolve hoje em dia. Em Janeiro do próximo ano o Instituto vai estar em destaque na Fox News e no canal C-SPAN durante as primárias presidenciais de New Hampshire.
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