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ENTREVISTAS
Pepe Diniz: Fotógrafo, foto-jornalista e autor
By António Oliveira
Terça 1 Julho 2003, 14:16 PST

Pepe Diniz nasceu em Tânger, Marrocos, filho de pai português, mas cresceu em Moçambique, país a que se encontra ainda muito ligado, apesar de viver na América desde 1974. Queria ser realizador cinematográfico, mas a falta de dinheiro para estudar cinema levou-o até à fotografia. Fez o liceu na África do Sul, tirou um curso de fotografia na Suíça, trabalhou depois em França, na Cinemateca Francesa, e em 1974 veio até aos Estados Unidos como fotógrafo “residente” no “Film Departament” da George Eastman House, em Rochester, NY. Trabalhou depois na Cinemateca Americana, em Manhattan, cidade onde desde 1975 desenvolve a sua actividade como fotógrafo e foto-jornalista “free lancer”. Os seus trabalhos estão espalhados por publicações de nomeada e instituições como a The New York Public Library, American Arbitration Journal, Fairchild Publications, American Express, Blumenfeld Associates, Abraham & Strauss, American Jewelry Manufacturer, Metropolitano de Lisboa, entre outras. Foi já várias vezes consultor das Nações Unidas para Moçambique, em questões como as eleições, a paz, imprensa, etc. De Novembro de 1995 a Maio de 1996, por exemplo, foi colaborador no relatório final das Nações Unidas sobre o Processo Eleitoral neste país africano — “Elections in the Peace Process in Mozambique”, no qual participou com texto e a maior parte das fotografias. Em 1995 co-realizou o documentário “Lisboa, USA”, uma curta-metragem em 16mm sobre pequenas cidades nos Estados Unidos com o nome de “Lisbon”.

As suas fotografias estão espalhadas por várias colecções públicas e privadas e em galerias, como a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, a The New York Public Library, o Metropolitan Museum of Art de New York, a Fundação Calouste Gulbenkian, Brooklyn Museum, Fox Talbot Museum (Lacock, England), Center for Creative Photography (Tucson, Arizona, USA), Biblioteca Nacional de Paris, Museu da Imagem e do Som (São Paulo, Brazil), Yuen Lui Gallery (Seattle, Washington, USA), Museu de Arte Moderna, Sintra, Arquivo Histórico de Moçambique, Banco Totta e Açores (NY); Banco Português do Atlântico (NY), Broad National Bank (NJ), Fundação PLMJ (Lisboa), etc. Como foto-jornalista colaborou já em publicações como o Atlantis Magazine, a American Arts de New York), o The New York Times, a Creative Camera (London), o The Village Voice, a Iris Magazine do Rio de Janeiro, a Revista Atlantis da TAP, o Photo OVO de Montreal, Progresso Fotográfico de Milão), Nueva Lente de Madrid, a Popular Photography de New York, a Petersen’s Photographic de San Francisco, a Revue Suisse de Photographie de Lausanne, a PhotoCinema de Paris, etc. É também autor de vários artigos publicados em revistas e jornais, nomeadamente na Portuguese Studies Revue (University of New Hampshire, Durham, USA), Le Monde (Paris), “Metropolitan Diary” (secção do New York Times), New York Création (Paris), O Expresso (Lisboa), O Independente (Lisboa); La Tribune (Lausanne). A ainda o autor dos livros “À LIisboa da Naus Cheia de Glória” — Fotografias de Lisboa que ilustram um poema de António Nobre. “Lisboa, Luzes e Sombras” — Ensaio fotográfico sobre a cidade de Lisboa com poemas de David Mourão-Ferreira, “Kids of Francmoisin” — Fotografias de crianças Portuguesas realizadas em 1972 num bairro da lata perto de St. Denis, França. Prepara actualmente 3 outros livros, um sobre a história da cidade de Maputo, com fotos e texto seus, em Português e Inglês, outro sobre os retratos de personalidades realizados pelo autor, e um outro contendo 12 histórias verídicas que retratam 27 anos de vivência do autor em New York. Nestes 27 anos de fotografia, Pepe Diniz participou em dezenas de esposições individuais e colectivas em Portugal, Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, etc. De entre as personalidades famosas que fotografou contam-se Salvador Dali, Andy Warhol, Gloria Swanson, François Truffaut, Miles Davis, Bernardo Bertollucci, John Cage, William Burroughs, Pierre Cardin e muitos outros.

Nasceu em Marrocos, cresceu em Moçambique, estudou na África do Sul e na Suiça, passou por França e vive em NY desde 1976

Porque veio para os Estados Unidos trabalhar como fotógrafo?
Nasci em Tânger, Marrocos em 1945. O meu pai era português e chefe de orquesta, nesses tempos, durante a 2ª Grande Guerra, quando Marrocos parece ter sido um dos poucos sítios onde ainda se podia encontrar trabalho bem pago como músico. A minha mãe é portuguesa, mas de origem húngaro-romena. Em 1941 era jornalista num jornal romeno, mas teve que fugir quando chegaram os Nazis. Foi desembarcar em Tânger, onde encontrou o meu pai. Aos 7 meses de idade eu já estava de viagem para a Espanha e Portugal. Cresci em Moçambique onde acabei o 4º ano e depois fui estudar para Joanesburgo, na África do Sul, onde fiquei até terminar o 7º ano. Em 1965 fui até à Suiça onde durante 3 anos tirei um curso de fotografia numa escola oficial em Genève enquanto trabalhava em Lausanne como “carregador e descarregador de carruagens-correio” do caminho de ferro. Em 1972 estava já em Paris a trabalhar como fotógrafo para a Cinemateca Francesa quando o Director da Cinemateca Americana na George Eastman House em Rochester (Estado de New York), James Card, viu o meu trabalho e propôs-me vir trabalhar para ele nos EUA. Assim foi e em meados de 1974 chegava a New York.

Quando é que a fotografia entrou na sua vida? Era a sua paixão?
Sempre quis fazer cinema, mas as minhas finanças nunca me permitiram entrar a sério nesta profissão. Pensei, no entanto, que a fotografia me poderia ajudar nesse sentido, aprendendo a enquadrar, a ver a luz, a conhecer um pouco melhor a parte técnica do cinema através da fotografia. No início comecei logo pelo retrato, pois gostava de dirigir a pessoa retratada como se fosse um actor. Mas aos poucos comecei a apaixonar-me pela fotografia, sobretudo quando comecei a revelar e ampliar as minhas próprias imagens. E tenho uma certa paixão pelo retrato, pois, como disse o Professor Lichtenberg, “a face é a superfície mais extraordinária da terra.”

Como é que conseguiu um trabalho na Cinemateca de Paris?
O seu director, Henri Langlois, gostou duma certa peculiaridade dos meus retratos: não são retratos lá muito glamorosos. Para ele, o “glamour” era uma coisa falsa, alterada. Digamos que ficou impressionado com o contraste e a seriedade dos retratados nas minhas fotografias. O mesmo aconteceu com James Card e é por isso que vim para os USA. No entanto, os retratados nem sempre gostam dos retratos que lhes faço. Por outro lado, não tenho problema absolutamente nenhum em trabalhar com os artistas, sejam eles pintores, escritores, cineastas, actores e até mesmo fotógrafos. Até me sinto mais à vontade com esta gente do que a fotografar, por exemplo, executivos ou chefes de empresas.

Do retrato à paisagem, da cidade ao campo, Pepe tem fotografado um pouco de tudo. O que prefere? Só fotografa a preto-e-branco? Qual é o significado da cor na fotografia?
Uma vez que a fotografia se me impregnou no corpo, cheguei à conclusão que tudo é fotografável, que há sempre uma imagem especial escondida no meio da banalidade daquilo que vemos. Olhe-se para cima, para baixo, para os lados, há sempre uma fotografia a fazer. Além do retrato, que é, digamos, a base da minha fotografia, adoro também o abstracto, a reportagem detalhada (e acompanhada de texto, pois também gosto de escrever) e até mesmo o “fora-de-foco.”
Gosto da fotografia a preto-e-branco porque posso trabalha-la do princípio ao fim. Não só faço a fotografia, mas revelo também o negativo, amplio a imagem e dou os retoques finais. Sou responsável por todo o processo. A foto a cores é outra história. Para já é altamente dispendioso (não me refiro à fotografia digital). Depois, os produtos químicos são muito mais tóxicos que os das fotos a preto-e-branco. Finalmente, uma fotografia a cores pode muito bem render as cores daquilo que foi fotografado, mas nunca há-de render a áurea do ambiente fotografado. A isenção da cor na fotografia a preto-e-branco, ou melhor: a absorção de todas as cores pelo preto, a rejeição de todas as cores pelo branco e o equilíbrio entre esse dilema pelos cinzentos, faz com que a fotografia a preto-e-branco realce a atmosfera, a personalidade daquilo que foi fotografado, coisa que a cor nunca fará. Claro, muitos trabalhos editoriais e retratos que fiz tinham que ser a cores. Mas esta fotografia é a fotografia comercial, o “advertising,” que na maior parte das vezes paga muito mais que aquilo a que se chama de fotografia “artística.” E como temos de comer e pagar a renda...

O que é a fotografia para si? A sua forma de ver o mundo? Comparável à pintura, escultura, etc?
Não tenho qualquer dúvida que a fotografia é uma arte. E nos Estados Unidos a fotografia tem já o seu pedestal na arena das artes, juntamente com a pintura, o desenho e a escultura. No início do século XX, os chamados pictorialistas, fotógrafos que faziam imagens que se assemelhavam à pintura, sempre tiveram o receio de chamar arte à fotografia. Era uma “arte menor,” por assim dizer. Foi preciso vir um Paul Strand, fotógrafo americano com as suas fotografias frontais e sempre em foco, para cortar definitivamente com essa dúvida. Insiste-se também no facto de que uma foto pode ser reproduzida, enquanto que uma pintura, por exemplo, é exemplar único, o que a torna mais valiosa. A verdade é que, pela sua intrínsica qualidade de ser reproduzível, a fotografia faz parte dum campo artístico mais democrático que a pintura. Mas mesmo este facto não significa que as imagens são todas iguais, pois cada ampliação é diferente. Uma das fotografias mais vendidas nos meios artísticos norte-americanos foi a “Moonrise, Hernandes,” do fotógrafo Ansel Adams. E ele mesmo dizia que cada tiragem que ele fazia era diferente da anterior e por isso “única.” Uma ampliação de “Moonrise, Hernandes” chegou a vender-se por sessenta mil dólares na Inglaterra.
É certo que o valor da pintura, de um quadro, até agora tem sido sempre mais elevado do que o valor de uma fotografia. E por isso mesmo a fotografia torna-se mais acessível ao coleccionador. Várias grandes firmas americanas, muitas delas na Wall Street, compraram um ou outro quadro valioso para esta ou aquela sala, e compraram também grande número de fotografias de fotógrafos famosos para adornar as outras salas. O edifício da “Dow Jones” perto da Wall Street, praticamente só tem fotografias nas suas paredes. Uma série de 10 imagens do famoso fotógrafo Henri Cartier Bresson estava exposta numa sala da American Express e custou quarenta mil dólares. As firmas e empresas portuguesas, tanto nos USA como em Portugal, e com poucas excepções, ainda têm uma certa timidez em investir na compra de fotografias. Isto talvez porque a fotografia em Portugal ainda não adquiriu o lugar que merece, embora haja um esforço meritório neste sentido por parte de várias instituições culturais.
Para mim a fotografia é como uma espécie de passaporte, facilitando-me o contacto com outras pessoas e o conhecer de outras terras. Notei que em momentos de certa angústia na minha vida as minhas fotos tinham uma tendência a serem mais contrastadas, enquanto que nos tempos mais felizes as ampliava com uma gama maior entre os cinzentos. Para qualquer outra pessoa a imagem pode parecer igual, mas para mim, há diferenças, nuances. É, possivelmente, o resultado do estado de espírito em que me encontro na câmara escura na altura em que estou a ampliar as fotografias. Na maior parte das vezes a diferença é só perceptível ao meu olho.

De todos os seus trabalhos ,qual foi o que gostou mais de fazer?
Cada retrato de uma personalidade que fiz tem a sua história, umas mais engraçadas do que as outras. Há pessoas que fotografei e com as quais aprendi muita coisa. Por exemplo, quando fiz em Paris o retrato do fotógrafo francês Robert Doisneau. Este grande artista mostrou-me um Quartier Latin que quase ninguém conhece, onde cada esquina, cada bistrot, cada calçada, tinham uma história própria. “Aqui, nesta mesa deste café,” dizia o Doisneau, “o Modigliani vendeu uma pintura por 50 cêntimos, pintura que hoje vale mais de um milhão de dólares.”
O trabalho, cuja experiência me deu mais satisfação, foi quando estive em Moçambique através das Nações Unidas, para trabalhar nos processos eleitorais. Este trabalho envolveu fotografia, jornalismo e escrita. É que estas tarefas significaram sobretudo ajudar os outros, comunicar o meu conhecimento para o benefício de outros. Foi também um trabalho onde conheci outra realidade da vida, onde entrei em contacto com outros valores humanos, como aqueles de gente a viver numa simples aldeia em Moçambique. É extraordinário como a sinceridade e a humildade das pessoas nos fazem ver, muitas das vezes, a futilidade de boa parte da azáfama das grandes cidades.

Apesar de viver nos Estados Unidos vejo que mantém uma forte relação profissional com Portugal. Porquê?
Profissionalmente tive vários contactos com Portugal e devo dizer que gosto muito desta dupla relação, Portugal e USA. Tive exposições, publiquei livros, e sobretudo fotografei bastante. O livro que fiz sobre Lisboa juntamente com o poeta David Mourão Ferreira, intitulado, “Lisboa, Luzes e Sombras,” foi outro daqueles trabalhos que me deu enorme prazer. Vi uma Lisboa diferente, altamente fotogénica e bonita. Acima de tudo vou a Portugal para estar com a minha mãe que mora perto de Lisboa, onde também tenho lá família. Além disso, muitos dos meus melhores amigos estão em Portugal. E tenho que confessar que adoro Lisboa. Adoro a comida portuguesa que é uma das poucas comidas que como com imenso gosto. Depois, Lisboa tem outras coisas que muito aprecio, como os alfarrabistas, os eléctricos e, sim, a Feira da Ladra, a Feira dos Coleccionadores (bilhetes de eléctrico, postais ilustrados, comboios eléctricos, sêlos, etc). Penso que, sendo português, manter um contacto com a mãe-pátria é sempre importante, quer que seja por relações familiares, quer profissionais. Portugal é o meu paliativo.

É fácil ser-se fotográfo em New York, com tanta concorrência? Neste 27 anos, nunca considerou mudar-se?
Costuma dizer-se que para vencer em New York uma pessoa tem de ser altamente determinada, tem de perseverar continuamente, puxar para aqui e empurrar para ali, ser fura-vidas. Tenho que confessar que para minha maneira de ser, com uma preguiça benigna bem impregnada dentro de mim, tudo isso me parece um tanto cansativo. Na realidade nunca mudei a minha maneira de viver lá por estar em New York. E é isso que gosto nesta cidade. É que de facto, existe também o revés da medalha. Pode-se viver lentamente e alcançar as metas. Claro, leva mais tempo, mas hoje em dia acho que é mesmo preciso dar mais tempo ao tempo, senão a vida passa num instante. Verifiquei que o trabalho editorial, por exemplo, embora bem pago, cansava-me e irritava-me mais do que qualquer outra coisa. Decidi, pois dedicar-me a fazer o que gosto. Fotografar o que me interessa, o que me atrai. Revelar e ampliar as fotos e depois tentar vende-las a museus, galerias, coleccionadores, etc. Não é nada fácil e há momentos de alta angústia, sobretudo financeira. Mas é o meu trabalho, a minha fotografia, sem estar condicionada por parâmetros editoriais ou outros. E agora com a Internet, espero que as coisas andem um pouco melhor. E esta maneira de eu ser, de facto só o posso ser em New York. É que nesta cidade sempre acontece qualquer coisa que me vai permitir ter a “sandes nossa de cada dia.” Era-me impossível viver assim em Lisboa, por exemplo.

Quais são os fotógrafos que mais admira e o influenciaram?
Nunca deixei de admirar os mestres. Estes monumentos da fotografia, como Paul Strand, August Sanders, Joseph Sudek, Robert Doisneau, Cartier Bresson, Walker Evans, Irving Penn, Robert Frank, Manuel Alvarez Bravo, André Kértèsz, Dorothea Lange e outros, criaram uma base sólida a partir da qual outros fotógrafos emergeram. Mas a grande influência nos meus retratos vem do fotógrafo inglês, Bill Brandt. Infelizmente nunca lhe fiz um retrato, nem sequer o conheci, mas posso dizer que foi a fotografia dele que me fez mudar completamente a maneira como eu retratava.

É um fotógrafo sofisticado ao nível dos materiais? Lembra-se da primeira fotografia que tirou?
Sou fotógrafo há mais de 30 anos e sempre tentei utilizar o mínimo de equipamento possível. Continuo a fotografar com a mesma Pentax que comprei há 32 anos atrás. E ainda tenho e utilizo as mesmas bandejas de ampliação que adquiri há 35 anos. Claro, entretanto comprei outras máquinas de fotografia, ampliadores, etc, mas nunca compro nada que seja automático. Por isso mesmo tenho sempre que comprar máquinas em segunda-mão, pois o que há hoje em dia é praticamente tudo plástico e digital. O bom papel de ampliação a preto-e-branco também já praticamente não existe. Que eu me lembre, acho que a minha primeira fotografia foi a de uma árvore, que aliás saiu um tanto desfocada. Tirei-a com uma Pentax, anterior à que tenho hoje. O meu primeiro retrato de uma personalidade foi o do actor Franco-Suiço, Michel Simon. O segundo foi o do escritor George Simenon.
Como já disse, apaixonei-me pela fotografia. Mas ainda hei-de casar-me com o cinema.

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