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ENTREVISTAS
Inês Pereira
By David Tatlock e António Oliveira
Sexta 7 Novembro 2003, 15:49 PST

Inês Pereira não entrou em nenhum filme (embora não lhe falte talento e beleza para isso), não é desportista famosa nem
presidente de nenhum clube ou associação portuguesa na América, mas é também uma emigrante vencedora neste país de oportunidades, por isso uma heroína que merece o nosso destaque. Seis anos depois de ter chegado a Ludlow, MA, pensou que era já tempo de deixar de servir os outros às mesas do restaurante e decidiu tentar a sua sorte comprando negócio próprio — o Aliança Fish Market. Hoje, aos 23 anos, graciosos na sua beleza feminina e físico apurado, Inês representa os ideais e sonhos de toda a jovem que anseia por singrar na vida e vencer a batalha da independência. Com o seu noivo como sócio — um outro jovem emigrante português da sua idade, residente em Hartford, CT — Inês trabalha com paixão e afinco para realizar na América o sonho que trouxe de Nogueira: vencer na terra das oportunidades.
Inês Pereira e Jason no interior da sua peixaria e mercearia Aliança

Inês Pereira é natural de Nogueira, concelho de Boticas, Trás-os-Montes, e vive em Ludlow desde 27 de Julho de 1996, altura em que emigrou com os pais e o seu irmão Pedro em busca de uma vida melhor na América. Na aldeia de Nogueira Inês passava os seus dias entre a casa e a escola, numa monótona rotina e sem grandes perspectivas de futuro. Os pais, já reformados, tinham consciência da situação. Por isso, em vez de esperarem para ver os filhos engrossar o rol de desempregados da região, decidiram aventurar-se e fazer o mesmo que muitos dos sues familiares já tinham feito há anos atrás: emigrara para a América. A família fixou-se em Ludlow, cidade de Massachusetts onde reside uma importante comunidade transmontana, e Inês frequenta a escola durante um ano. Foi difícil a adaptação à língua, aos costumes, ao sistema, mas sobretudo ao novo país, onde tudo era diferente da sua Nogueira. Nessa altura Inês não sabia o que a esperava e estava longe de imaginar que teria de começar a trabalhar um ano depois para se sustentar. Arranjou trabalho no restaurante Montalegre e durante 5 anos os clientes habituaram-se ao sorriso e à cara bonita da jovem transmontana que ia espalhando charme e simpatia pelas mesas. A pouco e pouco Inês foi ganhando a segurança no inglês que lhe permitiu dominar a língua com o à vontade suficiente para iniciar novos voos. Por isso, quando surgiu a oportunidade ela não olhou para o lado e decidiu agarrá-la com as duas mãos. É assim que nasce o Aliança Fish Market, uma peixaria e mercearia onde sobressaem os produtos portugueses, virada obviamente para a nossa comunidade. "Foi muito difícil ao princípio", diz Inês ao Mundo Português". "Sobretudo para obter todas as licenças necessárias".

A têmpera de Inês (não fosse ela transmontana), e a enorme vontade de vencer acabaram por levar a bom termo o processo e desde há cerca de um ano que ela é proprietária do sue propor negócios. Uns dias melhores, outros piores, diz.

"O mais difícil é convencer as pessoas que esta casa agora é diferente e que oferece produtos e serviços de qualidade", diz Inês. "Temos trabalhado muito para ter tudo muito limpo e arranjado, para ganhar a confiança da comunidade portuguesa", acrescenta. É que, se abrir um negócio pode parecer o céu para muitos portugueses, é também sinónimo de trabalho árduo, persistência e, sobretudo, um grande risco financeiro. Minutos antes de ter acedido ao nosso pedido para tirarmos algumas fotos na rua, frente à montra do Aliança, Inês troca um olhar cúmplice, misto de ternura e fadiga, com o seu noivo, Jason Jorge. Tinha acabado de distribuir os produtos pelas prateleiras e ajeitava a cada passagem os que já lá estavam, com uma perfeição que demonstra uma responsabilidade pouco vulgar num jovem desta idade. George, um robusto e simpático português, pai da Viviana, de 16 anos, que faz aqui um part-time, não viera naquele dia serená-la com as suas belas canções folclóricas de Portugal, por isso o ambiente estava demasiado calado para o seu gosto. Mesmo assim, uma sensação de que "era sábado" pairava no ar. Tinha sido um longo dia na Aliança. À noite havia casamento português na comunidade e todos se preparavam para a boda. Inês ainda não parou um minuto, pois descobria sempre algo para fazer. Enquanto aviava os clientes, limpava o balcão ou conferira os livros, Jason varria o chão e ia abastecendo as arcas com gelo. Uma peixaria tem de estar sempre limpa ao pormenor, imaculada, sem cheiro a peixe ou sinal de desmazelo. O Aliança, as contas da electricidade atingem mais de $1.000 no final do mês; depois há a renda, os seguros, a água e muito mais. A margem de lucro não é grande e a comunidade portuguesa nem sempre apoia este pequenos mercados. Por isso há que trabalhar muito, sem desanimar. Inês sabe que todos os olhos da família e comunidade estão concentrados nela, por isso as expectativas, e as responsabilidades, são grandes. A semana nunca acaba, nem há fim-de-semana, ou pausas no trabalho. Inês não tem medo de falhar, gosta do desafio e até já pensa em expandir o negócio.

"Talvez cozinhar", diz. "Estou a ver se é possível alargar mais e fazer de um lado um talho e de outro oferecer comida fresca para fora", diz. "Talvez fritar peixe para vender, pois as pessoas, especialmente no Inverno, não gostam de fritar peixe em casa, por causa do cheiro".

O pior é que a comunidade portuguesa de Ludlow é oriunda, na sua maioria, de Trás-os-Montes, região onde o peixe não é produto alimentar muito consumido. Por isso Inês aposta num serviço que vai além da comunidade. Os sabores da nossa cozinha, e dos nossos produtos, são já conhecidos das outras etnias, que também fazem parte da clientela do Aliança. Numa época em que as grande superfícies ditam as leis do mercado, engolindo tudo à sua passagem, é reconfortante saber que ainda existem pequenos comércios locais, com o Aliança, uma loja onde "se conhece o cliente pelo nome" e se dedica a cada um deles mais do que os cinco ou dez minutos que leva a pôr os preços dos produtos na caixa registadora e receber o dinheiro. Como nos velhos tempos, o Aliança é mais do que uma loja: é um ponto de encontro da comunidade, o local onde se fala a nossa língua, onde se dão os bons dias e as boas tardes quando se entra e quando se sai, um sítio onde se saboreiam os cheiros portugueses, as cores da nossa terra, onde se respira comunidade na verdadeira acepção da palavra. Por isso esta história é dedicada a toda as peixarias e mercearias portugueses desta grande nação a àquele que passam muitas horas da sua noite conduzindo do mercado do peixe para a sua loja e que, mesmo cansados, estão sempre dispostos a dois dedos de conversa com um sorriso nos lábios. Tente o leitor isso num dos grandes supermercados e verá o que lhe acontece!

O namorado de Inês com Jason aproximou também duas famílias típica portuguesas — unam transmontana outra ribatejana — que depositam nos dois jovens muitas esperanças. A oportunidade de se iniciarem no negócios surgiu quando Isabela, a ex-proprietária do Aliança, faleceu na Primavera de 2002, vítima de cancro. Inês, que sempre sonhou ter os eu negócios, convenceu Jason a meter-se na aventura. Com a ajuda do pai deste, supervisor da peixaria Sol Mar, em West Hartford, CT, os dois trabalharam durante mais de um mês renovando e modernizando a mercearia, estrategicamente localizada na privilegiada esquina da Windsor com a East Street, bem à cabeça da zona onde residem os portugueses.

Com a energia e entusiasmo dos seus vinte anos, os dois jovens, ajudados pelos patriarcas, reconstruíram completamente o antigo espaço do Aliança de modo a adaptá-lo às exigências de uma moderna e eficiente peixaria, com arcas frigoríficas gigantes, cozinha e todos os apetrechos indispensáveis à operação deste tipo de negócio. O Aliança reabriu em Julho do ano passado.

Um dia típico de trabalho no Aliança começa com a chegada dos pais de Inês e Jason, André ou Manuela, que escamam e limpam o peixe à frente dos clientes, à maneira tradicional portuguesa Ajudam também os dois jovens a prepararem-se para mais um dia longo de trabalho, sempre com um sorriso nos lábios, orgulhosos por verem os seus rebentos singrarem no negócio. A maioria das pequenas mercearias e peixarias portugueses na América são negócios de família e este não é excepção. Durante o dia, enquanto Jason faz entregas de peixe pelas imediações, sobretudo em casas de portugueses, onde todos o conhecem, Inês vai dirigindo duas empregadas em part-time na distribuição dos produtos pelas prateleiras, arcas frigoríficas ou na operação da caixa registadora; há ainda que saudar cada cliente pelo nome, sempre com um sorriso, e desejar os bons-dias ou boas-tardes.

Na preparação deste artigo tivemos a oportunidade de comprovar in-loco do natural instinto português para criar um ambiente de trabalho afável e civilizado, onde todos se sentem bem nas suas actividades do dia-a-dia. Desejamos as maiores felicidades ao casal de jovens comerciantes e que todos os seus sonhos se realizem. Desejamos também que todas as pequenas mercearias portuguesas espalhadas pela América tenham o sucesso que merecem e o apoio das nossas comunidades. Elas são o exemplo da nossa persistência e vontade de vencer nesta terra que nos acolheu; elas representam o que de mais genuíno temos na nossa alma de aventureiros e comerciantes, herdeiros dos nossos antepassados de quinhentos.

"Sinto-me bem aqui e agora já não penso em voltar à minha terra", diz Inês no final da nossa conversa.

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