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ENTREVISTAS
Tiago Outeiro
By António Oliveira
Quinta 11 Dezembro 2003, 10:15 PST

Um jovem cientista português de 27 anos, candidato ao doutoramento no
Massachusetts Institute of Technology, fez uma descoberta importante em direcção à descoberta de uma cura para as doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson, por exemplo. O estudo de Tiago Fleming Outeiro foi publicado em dois artigos na prestigiada revista Science no princípio deste mês, co-assinados por si e por Susan Linquist, directora do Instituto Whitehead do MIT. Tiago Fleming Outeiro está há 4 anos nos Estados Unidos num programa de doutoramento do MIT. Oriundo de uma família de médicos e professores, Tiago disse ao Mundo Português que desde miúdo pensou em ser cientista, mas só depois de terminar a licenciatura na Faculdade de Ciência Bioquímicas do Porto é que decidiu seguir a investigação médica. Foi então para Inglaterra com uma Bolsa de Estudo, mas dois anos depois optou pelos Estados Unidos, país que ele considera com uma "mentalidade mais aberta" e onde "há um grande investimento na investigação". A terminar a sua tese (faltam apenas 6 meses), Tiago diz que vai ficar mais um tempos pela América, na Universidade de Harvard, a fim de concluir um curso de pós-doutoramento. Em entrevista ao Mundo Português explicou a importância do seu estudo e falou um pouco sobre a sua experiência de ser cientista português nos Estados Unidos.

 Tenho uma vontade grande em tentar dar alguma coisa ao meu pais… se ele investe em nós, cabe-nos a responsabilidade de tentar retribuir’

Mundo Português — De que trata concretamente o estudo que realizou e os artigos publicados na revista Science?

Tiago Outeiro — O meu trabalho focou-se no desenvolvimento de um novo modelo para o estudo de doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson. Em varias doenças neurodegenerativas o que acontece é que certas proteínas adoptam formas que não são as normais, e que fazem com que elas formem agregados, clusters de proteínas que se depositam dentro (ou fora) das células, levando a inúmeros problemas. Mas o estudo destes processos é muito complexo, principalmente ao nível molecular. O modelo consiste em usar um organismo mais simples, mais fácil de manipular, mais barato - células de leveduras. O que nós fizemos foi produzir uma das proteínas envolvidas na doença de Parkinson nas leveduras e estudar quais os efeitos nas células quando variávamos os níveis de produção. Deste estudo resultam novas ideias sobre a função da proteína bem como aspectos relacionados com os mecanismos celulares que levam aos problemas que eventualmente causam a doença. Houve varias conclusões importantes desta investigação. Por um lado demonstramos que se a célula não for capaz de controlar os níveis de produção e acumulação da proteína, por ter problemas nos seus mecanismos de controlo de qualidade, isso pode ter efeitos dramáticos e prejudiciais para as células. Por outro lado vimos que esses efeitos se centram principalmente ao nível do transporte intracelular e também do metabolismo de lípidos. Finalmente, no segundo trabalho publicado na mesma revista, identificamos genes que estão envolvidos nestes problemas e que estamos agora a estudar se poderão ser factores de risco para a doença de Parkinson e também para a doença de Huntington.

MP — Estes estudos pretendem avançar na cura deste tipo de doenças? Dentro de quanto tempo vai ser isso possível?

TO — Estes estudos vão permitir avanços muito mais rápidos, que podem eventualmente levar à descoberta de novas terapias. Por um lado vai permitir testar um elevado número de drogas a um custo baixo, e com grande rapidez. Por outro lado é um modelo genético que pode ser facilmente manipulado, e que vai ajudar ao desenvolvimento de novos modelos animais, que serão cada vez mais importantes para o estudo destas doenças. Estou convencido que um dia iremos perceber tudo o que se passa a nível celular para que se desenvolva estas doenças, e poderemos também interferir e prevenir a sua ocorrência. Mas não é possível estimar um prazo para que isto aconteça… há muito ainda para perceber, e pode demorar mais ou menos tempo… o importante é as pessoas perceberem que sabemos muito mais hoje do que aquilo que sabíamos há 10 anos atrás… e também temos que ter consciência que é preciso continuar a investir nestas áreas para que se consiga descobrir as tão ansiadas curas.

MP — Então por que razão somos todos os dias confrontados com notícias sobre descobertas maravilhosas que permitem a cura desta ou daquela doenças quando, na prática, isso leva anos a materializar-se, e às vezes nunca se concretizam? Não haverá aqui um aproveitamento por parte dos laboratórios, universidades ou cientistas para chamar sobre si atenções ou atrair financiamentos?

TO — Essa pergunta é muito pertinente, e eu entendo perfeitamente a razão da sua existência. É muito natural para o público em geral achar que se ouve falar em demasiadas descobertas comparativamente ao número de tratamentos e curas que são realmente postos em prática… entendo que seja mesmo frustrante quando se tem familiares, amigos ou conhecidos que sofrem destas doenças, e não se consegue ajudá-los… entendo que se possa chegar a uma altura em que já não se acredita… Mas a verdade e que a ciência não para de progredir. Os avanços são notáveis, ainda que por vezes pareçam pequenos demais... mas para se chegar longe e preciso ir devagar… Quando se trata de vidas humanas há muita coisa em risco. Não podemos arriscar novas terapias sem ter a certeza de que são seguras… Tem havido diversos casos na história em que certos tratamentos são aplicados "cedo demais", e depois se descobrem efeitos adversos… cada vez mais é preciso agir com cuidado, e com a consciência de que estamos a fazer as coisas minimizando os riscos para as pessoas.

Eu não penso que os laboratórios Universitários queiram atrair atenções… porque só faz sentido fazê-lo quando há algo bem real… mas por vezes e inevitável atrair a atenção, para que o investimento continue, para que as pessoas mantenham a esperança… mas tudo deve ser feito dentro dos limites aceitáveis, sem levantar falsas esperanças.

MP — Qual é a importância de assinar dois artigos publicados na revista Science, em termos profissionais e pessoais?

TO — Para mim tem sido extremamente compensador ver o trabalho ser aceite com tanto interesse, e a ser publicado na Science. É algo muito importante para mim, e tem sido uma experiência muito boa. A nível pessoal dá também uma enorme satisfação, mas acima de tudo motiva-me para continuar! Profissionalmente, sei que tenho ainda um longo caminho a percorrer… tenho plena consciência de que tenho ainda muito a fazer que possa sentir que fiz algo importante… só me resta mesmo continuar a trabalhar!

MP — Vê-se como um daqueles cientistas introvertidos, que vivem no laboratório 24 horas por dia, ou leva uma vida normal?

TO — Eu não me vejo como sendo obcecado pelo laboratório… sei que trabalho muito, mas tento aproveitar o meu tempo livre sempre que posso. Vou ao cinema, janto com amigos… estou envolvido em varias actividades para alem do laboratório… jogo voleibol numa liga aqui em Cambridge, sou actualmente Vice-Presidente da Portuguese American Post Graduate Society (PAPS), tenho organizado congressos em Portugal… tento ter uma vida o mais normal possível Mas dedico grande parte do meu tempo a investigação, isso e verdade.

MP — Por que razão tantos estudantes portugueses procuram os Estados Unidos para se doutorarem? Por que não a Europa?

TO — Penso que a razão principal é porque os EUA são líderes em várias áreas do conhecimento. Quando se quer estar no grupo da frente tem que se pensar, forçosamente, nos EUA. Mas também há sítios muito bons na Europa, como Inglaterra, Alemanha, Franca. Depois também há o aspecto relacionado com a curiosidade… em Portugal, e na Europa, somos "inundados" com a cultura Americana… e para alguns há muitos aspectos atractivos na cultura Americana, o que faz com que as pessoas queiram vir para cá experimentar esta forma de estar na vida, ainda que isso sirva para se sentir que vale a pena voltar para o nosso "cantinho" na Europa.

MP — Gostaria, portanto, de voltar a Portugal? Já há condições para os cientistas trabalharem?

TO — Sim, eu gostava de poder voltar para Portugal. Penso que será muito difícil encontrar condições como as que tenho aqui, senão mesmo impossível. Eu tenho a sorte de estar num sítio que, mesmo nos EUA, e ímpar… e estou certo de que quando voltar para Portugal vou sentir a diferença… Mas sinto também que tenho uma vontade grande em tentar dar alguma coisa ao meu pais… Não sei se vou ser bem sucedido, ou se vou conseguir fazer algo digno pelo país, mas pelo menos tenho uma vontade grande de tentar… Acho que se o país investe em nós, cabe-nos a responsabilidade de tentar retribuir… Mas a nível profissional vai ser difícil fazer algo de muito substancial, porque ainda há poucas oportunidades para a vida Académica em Portugal… há muitos interesses instalados, e uma mentalidade que tem de ser alterada… há que aprender com países como os EUA, para que possamos desenvolver o pais!

MP — Quais são as principais diferenças entre o estudo em Portugal, em Inglaterra e aqui nos Estados Unidos?

TO — Bom, há de facto inúmeras diferenças relativamente ao estudo nestes países… Em Portugal e em Inglaterra o estudo ao nível universitário acaba por ser muito mais especializado, e focado do que nos EUA. Isso tem vantagens e desvantagens, claro. Por um lado aprofundamos mais os conhecimentos mais cedo, mas por outro lado perdemos um pouco aquele conhecimento mais geral, que acaba por fazer falta noutras situações. O facto de em Portugal não haver grande escolha relativamente às disciplinas que se quer estudar é também algo que poderia ser alterado, embora compreenda que isso acarrete custos muito grandes, ao nível da logística das Universidades, e que talvez não estejamos preparados para isso nesta fase… Ao nível das pessoas também notei uma grande diferença… aqui nos EUA as pessoas acabam por trabalhar com mais intensidade do que em Inglaterra… mas em Portugal também há laboratórios onde se trabalha muito, como aqui nos EUA.

MP — E como foi a sua adaptação a este país? E como "mata" saudades de Portugal?

TO — A adaptação aos EUA não foi difícil. A cultura acaba por não ser algo de muito novo, porque as sociedades Ocidentais tem princípios e valores comuns… o tipo de vida que levo é bastante semelhante aquilo que faria em Portugal, com a excepção da família e de certos amigos, que continuam em Portugal. Mas sei que eles estão lá a torcer por mim, e com uma grande vontade de que eu volte um dia…

A nível profissional tento manter alguns contactos com Portugal, mas a verdade e que não sei como vai ser quando tentar voltar... Mantenho também a ambição de, um dia, criar uma empresa na área da biotecnologia. Isso é algo que gostava de explorar, juntamente com outros colegas meus, pois acho que apesar das dificuldades há um grande potencial, sobretudo humano, em Portugal. A minha experiência aqui tem sido muito enriquecedora, sem dúvida.

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