FILATELIA
1. No último artigo começámos a falar das emissões filatélicas “Europa” e terminámos o artigo prometendo percorrer um pouco a história dessas emissões, parte integrante da criação de uma simbologia comum no espaço da União Europeia e da Europa. Não esquecendo esse objectivo e continuando o artigo anteriormente escrito”– daí a indicação de que é a 2ª Parte, apesar do título não ser o mesmo – fazemos um pequeno salto para falarmos da emissão adoptada no ano em que estamos. 2. Quando falamos em circo vem-nos frequentemente à memória o circo romano onde feras, gladiadores, corridas de carros puxados por cavalos e acontecimentos similares empolgavam populações manipuladas dessa forma pelos seus governantes. Recordamos a matança pública dos adversários do poder, incluindo os cristãos, os portadores de uma nova religião que iria transformar, com os seus aspectos positivos e negativos, o mundo. No entanto é mais legítimo procurar as suas raízes nos artistas de rua que na Idade Média percorriam feiras e povoações desta “vasta” Europa. O circo que hoje conhecemos e que delicia muitos de nós, miúdos e graúdos, tem objectivos, formas de funcionamento e uma organização relativamente recentes. As suas raízes são inglesas e francesas e remontam ao século XVIII, como tem cuidado em explicitar o documento dos CTT explicativo da emissão (pagela). O primeiro circo moderno surgiu em Londres, em 1768, dirigido por Philip Astley que actuava também como cavaleiro acrobata. Também se deve a ele ter percorrido a Europa com os seus espectáculos (tendo começado em 1772 com uma série de actuações em Paris) e ter estimulado o aparecimento de companhias em diversos países. Desde a sua origem até aos dias de hoje os circos são frequentemente nómadas, recolhendo fundo através de peditórios, quando os espectáculos se fazem em locais públicos, ou da cobrança de bilhetes, quando se realizam em locais fechados, frequentemente grandes tendas de lona montadas temporariamente para o efeito. Segundo El Cenachero o definitivo nascimento do circo moderno dá-se nos EUA: “O circo foi introduzido nos Estados Unidos pela mão de John Bill Ricketts, outro cavaleiro inglês que abriu um espectáculo na Pensilvânia, em 1892 e depois montou circos em Nova Iorque e em Boston (...); mas o verdadeiro iniciador do circo moderno foi Phineas T. Barnum que, associando-se a James Bailey criou em 1891 o famoso e espectacular circo Barnum-Bailey, que tinha três pistas sob o mesmo toldo”.
3. A raízes do circo em Portugal são similares. “Em Maio de 1596 estiveram em Lisboa uns arlequins, acrobatas, funâmbulos ou volatins, como lhe chamavam. E sabe o leitor onde representavam, e onde o público foi admirá-los e aplaudi-los, pagando as entradas a vintém por cabeça? Foi no pátio da casa do conde de Monsanto D. António de Castro. Por sinal o espectáculo rendia 30 a 40 mil réis em cada tarde” (Lisboa Antiga, citado em REIS, 2001, 63). Data de 1782 o primeiro circo instalado num teatro em Lisboa e desde então a sucessão de espectáculos por companhias portuguesas ou estrangeiras, ao ar livre ou em salas de espectáculo, na capital, no Porto e em outros locais deste pequeno país. O Coliseu dos Recreio foi ama importante parte desse processo: “Lisboa precisava de uma grande sala de espectáculos. Com esta convicção fundou-se em 1887, a Sociedade dos Recreios Lisbonenses, em plena maré de exaltação nacionalista, na sequência das comemorações centenárias de Camões e Marquês de Pombal” (REIS, 2001, 112). Muitos dos circos que actuaram, e actuam, em Portugal estão associados a famílias que preservam a tradição (Cardinali e Chen, por exemplo). 4. Provavelmente a capacidade de atracção do circo já não é hoje o que era. Defronta-se com a concorrência de outras formas de lazer: “com a chegada do cinema e da televisão começará o seu declive, deixando uma profunda nostalgia nos nossos corações e momentos de felicidade na nossa memória” (El Cenachero), mas muitos acreditam que o circo tem capacidades de renovação e de manter, como actualmente se diz, um “nicho de mercado”. 5. Próximo de meia centena de administrações postais emitiram selos, blocos, carteiras, postais e cartas pré-franquiadas sobre o circo. Foi emitida cerca de uma centena de peças filatélicas, quase todas de grande beleza, repartindo-se por diversas imagens do circo, mas em que os palhaços surgem como o tema principal. O riso pode não ser cantado pelos filósofos, que vêm nele uma grande dose de irracionalidade, mas é dos melhores actos da vida, e os selos reconhecem-no.
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