logopeq2.jpg (3117 bytes)DESTAQUE

Catarina Leitão

Uma artista plástica que expõe de New York ao Japão

A obra de Catarina Leitão é feita de objectos gigantes, entre a pintura e a escultura, meio infantis, meio negros, atravessados por histórias, à espera da imaginação do observador. As suas instalações criam pequenos universos em que as regras são tão mágicas como reais, ligeiramente deslocadas para que o espectador possa também ele ser parte deste mundo criado pela artista.

 

Catarina Leitão nasceu em 1970 em Estugarda, na Alemanha, depois dos seus pais terem abandonado Portugal por razões políticas. Já de regresso a Lisboa com a família, em 1974, Catarina descobriu ainda muito jovem o seu interesse pelas artes plásticas. "Sempre fiz coisas, desde desenhos a pequenos objectos", afirma a artista, mas foi aos 16 anos, no final do liceu, que decidiu enveredar por uma carreira nas artes. Desta forma, em 1988 inicia o curso de pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa, que termina em 1993.

Ainda durante o seu período de estudos, em 1990, depois de frequentar um curso de iniciação ao desenho na Sociedade Nacional de Belas Artes, a artista foi convidada para assistir o professor e escultor Quintino Sebastião, tendo leccionado aulas de desenho na SNBA até 1994.

A história da sua vinda para Nova Iorque começa num workshop de artes plásticas com o pintor nova-iorquino Bruce Dorfman, na Escola Internacional de Artes de Loulé, que a persuadiu a visitar a cidade. Pouco tempo depois, Catarina Leitão decide seguir esta sugestão e inscreve-se na escola Art Students League of New York onde tencionava passar apenas seis meses. A sua estadia em Nova Iorque acabou por se prolongar e durante o ano que se seguiu, a artista mostrou trabalhos em várias exposições e num programa de seminários com o Bronx Museum of the Arts, intitulado "The Artist in the Market Place", tendo por fim participado numa exposição colectiva que o museu realiza anualmente. Este trabalho permitiu-lhe também o contacto com outros artistas de Nova Iorque e deu origem a um processo de colaboração que resultou numa exposição colectiva na Gallery Korea intitulada "Nature/Human Works."

O contacto com artistas asiáticos proporcionou-lhe ainda a participação em quatro exposições em Hiroshima, no Japão, duas delas em 1996, intituladas "Heat Up", e as outras duas em 1997, sob o tema "Artists Working in New York".

Apesar da actividade intensa que desenvolve em Nova Iorque durante este período, Catarina nunca perde o contacto com Portugal, continuando a participar em várias exposições no seu país de origem, sendo de destacar a sua ligação à Galeria Arte Periférica, com a qual colaborou durante cerca de três anos. Os trabalhos assim desenvolvidos foram expostos em locais tão diversos como Santiago de Compostela, em Espanha, Cannes, em França e Lisboa.

Em 1997, sentindo a necessidade de desenvolver o seu trabalho num contexto mais académico, Catarina Leitão candidata-se ao mestrado em Técnicas Combinadas na Hunter College, City University of New York. Uma vez aceite a sua candidatura pela universidade, a artista recebeu ainda uma bolsa de estudos conjunta de duas prestigiadas instituições portuguesas, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento.

Os últimos dois anos foram especialmente dedicados ao curso, tendo participado sobretudo em exposições no edifício da escola e em ateliers abertos.

 

As obras de Catarina Leitão, entre a pintura e a escultura, são sobretudo instalações com espaço para a imaginação do observador

Catarina encontra-se neste momento a preparar a sua tese de mestrado, mas a vontade de voltar a mostrar trabalho ao público, levou-a a organizar, juntamente com outro artista plástico, Christian Nguyen, um atelier aberto sob o tema "Inside Out". Nesta pequena exposição que durou dois dias durante o mês de Março, ambos os artistas apresentaram instalações. A peça de Catarina Leitão consistia num conjunto de peças de roupa "gigantes", suspensas do tecto, que convidavam o espectador a entrar no seu espaço interior e a movimentar-se dentro de cada uma delas de uma forma que evocava e afastava simultaneamente uma sensação de familiaridade com os objectos representados.

Catarina Leitão prepara agora a sua participação na Bienal da Maia (ver caixa), em Portugal, onde irá exibir a mesma peça que os nova-iorquinos já tiveram oportunidade de ver.

A entrevista

Mundo Português — Como é que descreves o teu trabalho?

Catarina Leitão — É um bocado complicado. Quando me perguntam o que é que eu faço, normalmente digo que sou escultora, que é para pôr as coisas de uma forma mais simples. Mas o que eu faço de facto são instalações, no sentido em que o meu trabalho funciona com o espaço e a relação do espectador com esse espaço que eu povoou de objectos. Estes objectos normalmente são figurativos, ou seja, referem-se a outros objectos. O espectador pode identificá-los e criar leituras, ou camadas de leituras, que estão relacionadas com o próprio discurso do trabalho. É este o caso das roupas e do acto de entrar no roupeiro que elas implicam.

MP — Relativamente à peça que acabaste de referir, a que apresentaste na exposição de Março e que vais apresentar agora na Bienal da Maia, o que é que te inspirou a fazer o trabalho que fizeste?

CL — Essa peça tem precisamente a ver com a ideia de criar um armário ou um quarto que é fantástico e que é povoado por roupas que poderiam ser as roupas dos gigantes, mas que também não são suficientemente específicas para contar uma única história, isto é, permitem criar ligações com outras histórias que o próprio espectador pode desenvolver. Existe ainda a ligação com os espaços em que nós vivemos. A escolha das roupas está relacionada com o facto de eu as pensar como espaços, como o primeiro espaço que nós habitamos, o espaço exterior mais perto do corpo. Depois, as roupas têm também outros objectos inseridos que estão relacionados com histórias, com as histórias das pessoas que viveram dentro delas. A escala tem muita importância. Aquelas roupas são grandes e o espectador é pequeno, isto é, contam também um pouco da história da criança que entrou no armário.

MP — A que género de estudos é que se dedica um estudante de artes plásticas?

CL — Um estudante de artes plásticas frequenta quase sempre cadeiras paralelas que podem não estar directamente relacionadas com o seu trabalho, mas que são bastante enriquecedoras. Acho que não se pode generalizar em termos de quais são as disciplinas fundamentais. Hoje em dia já nem faz muito sentido uma escola com um curriculum exclusivamente dedicado à pintura e desenho, pois as artes estão todas interligadas. Por exemplo, durante este mestrado no Hunter College frequentei cadeiras de Vídeo, Fotografia, Computadores, História da Arte, História da Fotografia e Teoria e Crítica da Arte.

 

"Eu estou fascinada por brinquedos e trabalhei sempre muito em torno da ideia de brincar com as coisas, e de tocar e procurar"

MP — Queres falar um pouco sobre o projecto de tese em que estás agora a trabalhar?

CL — Posso falar um bocadinho. Não quero falar muito, porque é surpresa ... A tese vai ser um desenvolvimento desta instalação que eu terminei agora. A obra anterior tem uma componente que implica que o observador entre dentro da peça, dentro dos espaços escultóricos das roupas. Este é um factor que nem sempre é bem sucedido. As pessoas estão habituadas à arte que é para ver ao longe, que não é para tocar. E as minhas peças são todas para entrar e tocar e mexer, para que as pessoas usem o próprio corpo até para descobrir coisas. A minha tese vai ser ainda baseada na ideia dos quartos e das roupas, mas as roupas vão ser maiores e vão elas próprias transformar-se nos quartos onde as pessoas entram. A própria apreciação e linguagem corporal do observador necessária à leitura das peças vai ser mais óbvia, para que as pessoas saibam o que têm que fazer. Algumas das peças serão suspensas, outras estarão montadas numa espécie de cabides que acabam em forma de cadeiras ou camas para que o espectador se possa sentar ou deitar. Para além da própria resolução formal das roupas terem objectos e desenhos embutidos que nós vemos à transparência, estou a pensar incluir som nalgumas delas, noutras um pequeno vídeo com uma história de animação relacionada com as próprias roupas e eventualmente algum texto. Mas tudo isto são elementos que ainda estão a ser explorados e pensados.

MP — Qual é a tua opinião, como artista, sobre Nova Iorque e em que medida é que isso tem influência no teu trabalho?

CL — A grande influência que eu tive desta cidade é o facto de acontecerem muitas coisas ao mesmo tempo. Há uma grande intensidade em tudo e nesse sentido torna-se mais fácil ter ideias e criar trabalho. Há um estímulo constante do exterior e eu não acredito no artista fechado em casa com as inspirações divinas. O trabalho plástico também reflecte as experiências que o artista vive. Eu tenho certeza que se eu tivesse ficado em Portugal não pensava da mesma maneira. A criação tem muito a ver com o meio onde se está, com as coisas que acontecem, com próprio dia-a-dia. Estas experiências dão origem a formas de pensar diferentes. É claro que também há outros elementos a considerar. A verdade é que o meu trabalho mudou, mas não se transformou radicalmente quando vim para Nova Iorque. Eu já tinha começado a explorar muitas das questões que continuam a fazer parte do meu trabalho, nomeadamente a do espaço. Aliás, a primeira instalação que eu fiz, em Lisboa em 1992, juntamente com dois outros artistas, partiu precisamente desse desejo de trabalhar a maneira de ver as peças de um modo diferente. A minha peça implicava já que as pessoas circulassem e mexessem e soprassem e procurassem.

MP — Tu falas sempre em tocar, soprar, armários, gigantes... que me parecem elementos do universo infantil. Esta dimensão é uma componente assumida do teu trabalho?

CL — Mais ou menos... Eu até tenho alguns problemas em relação a isso. É uma dimensão consciente. Eu estou fascinada por brinquedos e trabalhei sempre muito em torno dos brinquedos e da ideia de brincar com as coisas e de tocar e procurar, que fazem precisamente parte do universo infantil. Agora, o que eu quero é trabalhar nesse universo infantil, mas transferi-lo para o mundo adulto. É que nós no fundo somos todos um pouco assim, só que já nos esquecemos, já não sabemos brincar. É precisamente isso que me interessa explorar e que está presente mesmo no meu trabalho mais recente. As peças são feitas em grande escala e têm um lado de humor que as aproxima dos cartoons, quase como desenhos acriançados. Mas ao mesmo tempo, as imagens que eu contraponho a isso são mais negras. Eu quero precisamente contrastar esse lado infantil do jogo com um lado mais escuro, mais misterioso, que afinal também tem a ver com o universo infantil.

MP — Quais são os teus projectos para o futuro?

CL — Eu não tenho muitos planos para o futuro. Gostava de ficar em Nova Iorque mais uns tempos, mas não sei quais são as possibilidades de isso acontecer. O que eu gostava mesmo era de poder viver uma metade do ano em Portugal e a outra metade aqui, mas acho que não vai ser possível. Estou à espera de acabar a minha tese para, no ano 2000, tomar decisões.

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