logopeq2.jpg (3117 bytes)DIA-CRÓNICA

O guerreiro decapitado

Por Onésimo Teotóni Almeida

Posto em sossego sentado ao computador, tento acabar o texto de uma comunica-ção para Maputo. Madruguei com esse intuito. A dança dos aeroportos começará no fim da tarde. Às oito e tantas, por mero acaso, confirmo a hora de saída. Deparo com: 6:15a. Um a minúsculo e fatal. Não tinha dado por ele antes.

Os Estados Unidos nunca aceitaram a convenção de contar as horas do dia de 1 a 24 como o resto do mundo, e usam a abreviatura do latim ante meridiem e post meridiem. No bilhete da passagem, contraído ao mínimo, põem apenas o a ou o p. Na pressa não reparei. Significa que neste momento eu deveria estar no aeroporto de New York, em trânsito para Johannesburg, não em casa a escrever.

A abençoada Internet resolve tudo em minutos. Cancelo encontros agendados em Maputo, remarco-os, aviso o hotel e consigo nova passagem para amanhã. Mas está cheio o voo das seis e quinze Providence-New York, pelo que terei de ir logo à noite, dormir num hotel no aeroporto J. F. Kennedy e seguir então amanhã cerca das onze para Johannesburg. Não há grande grande azar.

Termino o texto em continuado sossego. À noite lá sigo para o aeroporto. Mala despachada e cartão de embarque em riste, avisam-me que há mau tempo em New York. Voo atrasado uma hora. Sairá às nove.

Vou acantonar num café, mesmo junto ao portão de embarque, a ler O Guerreiro Decapitado, um romance que o José Leon Machado me enviou de Chaves. Com vinte minutos de antecedência, dirijo-me para o portão de embarque e dou com tudo deserto. Em investigações subsequentes apuro que o avião saíu afinal às 8:30 (20:30 para leitores não americanos). Barafusto. Mostro o cartão de embarque e respondem-me que me chamaram três vezes. Inútil explicar que, quando me embrenho numa boa leitura, desapareço. Pergunto então pela minha mala: seguiu para NY. "Mas nunca fazem isso! Enviaram a mala sem o passageiro?!"... - "Não há problema. O senhor não é passageiro de risco."

Tal revelação conforta-me sobremaneira. Argumento que preciso de estar em New York para apanhar o voo para a África do Sul na manhã seguinte. Conseguem-me uma reserva. Regresso a casa. A Leonor joga trunfo: Se fosse comigo já não viajava.

Comigo, porém, a teimosia não é bagagem; é de nascença. Antes das seis da manhã já estava no portão de embarque. Declara-me um cara de pau que o voo está cheio e eu estou em lista de espera. Tento explicar que tenho voo confirmado. Debalde. Não lhe cabia ouvir as minhas queixas, fosse chatear o pessoal do balcão. E fui.

Para o balcão, claro, que o voo esse foi-se sem mim. Pela terceira vez de enfiada. Mas resolvo nem informar a Leonor. Iria definitivamente procurar dissuadir-me da viagem e arrumar-me quieto em casa.

Tive só uma vez uma história dessas, mas não chegou tão longe. Nos princípios da década de 80, ia de Lisboa para os Açores. O taxi demorou uma hora dos Restauradores ao Saldanha. Era uma quarta-feira internacional e o Porto jogava. Meia Lisboa saiu mais cedo do emprego provocando um congestionamento total. Desisti. Juntei amigos e fomos passar o serão em casa do João de Melo. Voltei ao hotel alta madrugada. O serviço de despertar acordou-me dali a três horas para o voo da manhã. Devo ter respondido, mas não me lembro. Só me recordo de acordar pelo meio-dia, o fio dependurado até ao chão e o telefone ao pé da cama.

Há um mês, saltei aeroportos entre Boston e Frankfurt. Seis aeroportos em oito voos, quatro comboios e dois autocarros, por vezes com magros minutos de intervalo e a contra-relógio. Um dos dias chegou mesmo a ser pequeno almoço em Ponta Delgada, almoço em Lisboa, jantar em Frankfurt e café no Luxemburgo. Tudo sobre rodas. Agora três voos perdidos de seguida é ainda assim caso inédito. Nenhuma superstição será todavia capaz de suster esse meu baptismo de Moçambique. Barafusto no balcão, a menina garante-me que tinha de facto voo confirmado, inconsequente prémio de consolação. Quero sair para New York. As hipóteses, porém, reduzem-se a uma: o voo na Delta às 8:30. Um senão: é para o aeroporto de La Guardia. Como compensação, oferecem-me um táxi para me transportar de um aeroporto ao outro. E boa sorte! pois preciso de muita para chegar a tempo.

Encurtarei o que seria uma bem longa narrativa porque os deuses conspiraram para que tudo corresse a contravento, desde a meia hora de atraso na saída à demora do avião a hélice a aterrar e aprontar-se para o desembarque. Os únicos com pressa nesta manhã de sábado somos eu e o tempo. Tudo o mais está numa de descontracção.

Agarro o táxi. Sento-me à frente para suavizar o pedido: quero apanhar o voo das 10:50 da South African Airways. "Mas sabe que já são 10h e 10 e o terminal é no outro aeroporto?" Sei, claro. O meu taxista é que ignora ainda que teremos de ir primeiro buscar a mala que pernoitou na American Airlines. Alivia-me: é no mesmo edifício. Este indiano de antepassados, mas natural da Guiana, colabora carregando no acelerador e ziguezagueando quanto pode saindo da estrada por ruelas alternativas no mapa dos seus segredos. Larga-me por fim com votos de boa sorte.

Vou pela bagagem. Afinal não é neste edifício. Está no internacional, porque viera em voo doméstico. Corro para o outro. Peço informações. Fica ao fundo. É sempre mais fundo quando a gente tem pressa. Depois, é ainda no andar de baixo. Quando agarro a mala, restam-me uns míseros minutos para cobrir o percurso inverso agora com ela, mai-la pasta e o cabide dos fatos. Nem o Carlos Lopes na forma em que estava na maratona de Los Angeles conseguiria chegar a tempo. Em Agosto do ano passado o avião atrasou duas horas em Boston e depois de uma correria valente negaram-nos, à Leonor e a mim, saída para Istambul, mesmo com o avião da Turkish Airlines ainda ali, a poucos passos de nós. A cena ia repetir-se agora. O balcão vazio e a moça a dizer-me que o voo está praticamente fechado. Não pode ser. Perder quatro voos seguidos é exagero. Ela aparenta ter dó e telefona para bordo. Aceitam-me por fim.

Entro no gigante Boeing 747 e a minha única aspiração é um duche. Os deuses continuam surdos ou troçando de mim: tinham-me reservado um buraco no meio de uma fila, bem longe de qualquer janela. No assento ao lado, um gordão deixa descair o seu excesso de bagagem, um flácido saco de banhas sobre o meu assento. No que resta do meu lugar-a-ser, somente com muito jeito caberia uma perna minha. (Lembram-se da cena do garoto na cama de uma mulher descomunalmente gorda no filme The Seduction of Mimi, de Lina Wertmüller? Ficarão com uma ideia. Largamente esbatida.)

Será mais um sinal de que deveria ter ficado em casa? Não é ainda desta vez que vou crer nessa hipótese. Volto a desafiar as bruxas. Aproximo-me de uma hospedeira e peço-lhe que, com jeito para não ofender o senhor, se abeire do que seria o meu lugar e veja se é humanamente possível um mortal viajar quinze horas naquele resto de assento.

Fintei os deuses! Arranja-me lugar ao pé de uma sul-africana feita de sorrisos. A conversa com ela sobre a sua terra pós-apartheid entremeando a leitura de O Guerreiro Decapitado do Leon (vale a pena o romance deste jovem, a pisar terreno ignoto - uma análise das relações entre brácaros e os colonos romanos na Braga do século I) e depois mais outros dois rápidos livros não me deixam pregar olho nessa tarde e noite de Atlântico Sul. O sol africano, revigorante e mágico em fulgurante manhã de domingo fazem esquecer tudo. A África do Sul mesmo ali em baixo a ser despertada por raios de luz que a tingem de cores quentes e inebriantes. Tudo isso sepulta as atribuladas vésperas e os empecilhos aeropórticos.

África também minha.

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