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Um português no Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas O seu trabalho é fundamental para a melhoria das condições de vida nos países da América Latina T ito Santos é um dos poucos portugueses a trabalhar no Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Especializou-se em questões ambientais e desempenha um importante papel na criação e implementação de políticas internacionais nesta área. Fala com entusiasmo do seu trabalho e acredita que a contribuição da sua organização é fundamental para a melhoria das condições de vida nos países da América Latina.Tito Santos nasceu em Lisboa em 1966. Estudou na Universidade Lusíada onde tirou o curso de Relações Internacionais, tendo já em mente uma carreira para além das fronteiras portuguesas. Fiel a este objectivo, Tito Santos não esperou pelo fim dos estudos para obter uma experiência mais prática. Assim, ainda durante os anos da universidade, trabalhou não só com diversas organizações nacionais na área da juventude e da solidariedade nacional, como também com a União Internacional dos Organismos Familiares, da qual foi secretário da Comissão Internacional da Juventude. O entusiasmo com que se entrega à profissão que escolheu levou-o ainda a procurar outras experiências. Esteve em Luanda, Angola, a dar aulas de português e trabalhou como jornalista na revista "Sábado" e no semanário "O Independente". Terminados os estudos na Universidade Lusíada, Tito Santos começou a trabalhar na Associação Industrial Portuguesa (AIP), cujo departamento de cooperação internacional se dedica sobretudo à criação e implementação de projectos nos PALOP e nos países da União Europeia. Durante os dois anos que permaneceu na AIP teve ainda a oportunidade de, dentro da área da cooperação internacional e desenvolvimento, se dedicar àquela que se tornaria mais tarde a sua especialidade: o ambiente. A experiência assim obtida levou-o a Cabo Verde onde, já ao serviço do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PDNU), se dedicou à gestão de vários projectos na área do ambiente, nomeadamente nas questões da água, das energias renováveis e da bio-diversidade. MUNDO PORTUGUÊS O que é que te trouxe aos Estados Unidos? TITO SANTOS Em 1996 surgiu-me a oportunidade de vir para Nova Iorque, mais especificamente para no Bureau de Desenvolvimento de Políticas, trabalhar com uma senhora cujo nome é Angela Cropper. Ela tinha sido a secretária da Convenção da Bio-diversidade e veio para o PDNU para tentar fazer a ponte, neste departamento, entre as questões da pobreza e do meio ambiente, ou seja, para estudar formas que permitam às comunidades gerirem os seus recursos sem prejudicar o ambiente. Trabalhei com ela durante um ano. Quando ela decidiu voltar para o seu país de origem, Trinidad e Tobago, eu fui convidado para trabalhar no Global Environmental Facilty, mais especificamente no Bureau Regional da América Latina e Caraíbas, onde estou há quase dois anos. M.P. E que funções é que desempenhas no Bureau Regional Da América Latina e Caraíbas? T.S. Trabalho nas questões de mudanças climáticas e da bio-diversidade. Tenho também alguns projectos na Ásia e no Pacífico, mas dedico-me sobretudo às Caraíbas e à América Latina. O meu trabalho nestas áreas está relacionado com a criação e implementação de projectos de protecção do ambiente. Quando estes países ratificam as condições da bio-diversidade e das mudanças climáticas passam a ter acesso a um montante máximo de 350 mil dólares para elaborarem um plano de acção na área da bio-diversidade ou das mudanças climáticas. Eles têm então que delinear uma estratégia que reflicta formas de ultrapassar os problemas que têm. No caso da bio-diversidade seria, por exemplo, fazer um inventário de todas as espécies em termos de flora e de fauna. No área das mudanças climáticas, seria saber que tipo de gases e que quantidade de gases são emitidos e o que é que o país pensa fazer para mitigar os seus efeitos nocivos, como por exemplo, plantar mais árvores para absorver o CO2. Depois tenho também alguns projectos na área das energias renováveis. Tenho um projecto regional muito engraçado que agrupa a maior parte dos países das Caraíbas e cujo objectivo é ultrapassar as barreiras que existem à implementação de energias renováveis. Na maior parte destes países sai muito caro instalar painéis de energia solar, ou seja, a sua instalação implicaria um grande aumento das taxas. Desta forma, as energias renováveis não conseguem competir com os chamados combustíveis fósseis. Aquilo que nós estamos a tentar fazer é que nesses países sejam adoptadas políticas que tornem as energias renováveis mais atractivas. M.P. E como é que isso funciona na prática? T.S. Nós tentamos que, na medida possível, estes projectos sejam desenvolvidos pelos países, ou seja, que haja um envolvimento total da comunidade civil. Todos os sectores da sociedade têm que participar senão na elaboração do projecto, pelo menos na sua implementação. Se houver uma ampla participação da sociedade civil o projecto terá certamente uma taxa de sucesso mais elevada. Outro aspecto importante a focar é o facto de estes projectos serem executados por agências nacionais, isto é, não ser uma instituição externa ou estrangeira que execute o projecto pelo país. A razão de ser deste nosso esforço está ligada a uma tentativa de que haja uma retenção do próprio país da capacidade institucional, ou seja, tudo o que é aprendido em termos de projecto fica retido no país, na sua memória institucional. Se for uma entidade estrangeira a executar o projecto, as hipóteses de retenção são bastante menores. É importante que as comunidades sintam que são elas próprias a desenvolver o projecto e não um outro órgão externo qualquer. M.P. E como é que o PDNU consegue essa mobilização a população civil que referiste? T.S. O PDNU tem escritórios de representação em todos os países em vias de desenvolvimento onde é negociada a ajuda a prestar ao país, assim como às áreas prioritárias para onde essa ajuda deve ser canalizada. Basicamente, nós pomos à disposição recursos financeiros e assistência técnica e de especialistas, mas são os próprios países que vão realmente desenvolver o projecto. M.P. E já tiveste oportunidade de verificar a eficiência desses projectos? Parece-te que funcionam realmente? T.S. Eu creio que sim. O objectivo primordial do Fundo Ambiental Mundial, do qual o PDNU faz parte, é, em termos de bio-diversidade, a preservação de tudo aquilo que tenha um relevância mundial. Eu acho que o esforço que tem sido feito desde a conferência do Rio até agora, em termos de preservação do meio ambiente, é um esforço notável. Obviamente que se pode sempre dizer que não é suficiente, que é necessária uma maior mobilização de recursos económicos, que é necessária uma maior atenção. De qualquer maneira, este é um processo que leva algum tempo. Nós, no Fundo Ambiental Mundial, temos tentado da melhor forma possível ultrapassar estes problemas e, fundamentalmente, ajudar os países na sua luta contra as devastações, as extinções das espécies e, ao mesmo tempo, proporcionar a introdução de energias renováveis. Obviamente é uma tarefa gigantesca e é muito difícil fazer isto de um dia para o outro, mas nós, de qualquer maneira, tentamos fazer o melhor possível, sobretudo nas áreas em que os perigos são mais prementes. Depois, devo ainda referir, aquilo que nós fazemos não está apenas estritamente relacionado com o ambiente. Há ainda uma série de outros factores que nós temos em consideração quando estamos a criar um projecto: o envolvimento da sociedade civil, de que formas é que nós podemos contribuir para transferir recursos para as comunidades locais, para o desenvolvimento da mulher, etc. Não se trata apenas de proteger uma determinada espécie em vias de extinção. Nós tentamos assegurar-nos de que o impacto do nosso trabalho é mais profundo do que isso. Pessoalmente, eu gosto imenso daquilo que estou a fazer. Acho que a área do desenvolvimento e da cooperação é uma área fascinante. Trabalhar com estes países em vias de desenvolvimento é algo que me dá bastante prazer. Um idealista no planeamento urbano de NY Sílvia Neves veio para os Estados Unidos aos 13 anos. Depois de obter os graus de licenciada e de mestre em universidades Americanas, o seu desejo de contribuir para o desenvolvimento das comunidades levou-a a enveredar pelo serviço público. Hoje, enquanto prossegue uma carreira no planeamento urbano da Câmara de Nova Iorque, Sílvia assume-se ainda com uma idealista. Sílvia Neves nasceu no Bombarral em 1972. Frequentou um colégio de freiras em Torres Novas até 1986, ano em que se mudou para Queens, Nova Iorque, com a mãe e os dois irmãos. "A minha mãe veio para os Estados Unidos porque tinha medo de não conseguir dar uma boa vida aos filhos. E éramos três...", conta Sílvia [um dos irmãos de Sílvia, Jorge, é um dos sócios-gerentes do restaurante português em Manhattan Pão]. No liceu que frequentou nos Estados Unidos, experimentou as dificuldades inerentes à aprendizagem de uma língua estrangeira, o que a levou a isolar-se um pouco: "Eu andava no metro, ouvia as pessoas e pensava: eu nunca serei capaz de falar inglês assim. Era horrível". Terminado o liceu, Sílvia entrou para State University of New York, em New Paultz, onde estudou Ciências Políticas e Francês. O último ano deste curso coincidiu também com o início de uma carreira dedicada ao serviço público. Após um breve estágio de seis meses no Senado, em Albany, com o Senador do Bronx, Ifrahim Gonzalez, Sílvia foi transferida para os escritórios do Senador no Bronx. MUNDO PORTUGUÊS Como é que foi essa primeira experiência de trabalho com o Senador Gonzalez? SILVIA NEVES O trabalho no Bronx era bastante interessante. Enquanto que em Albany nos dedicávamos mais à análise de leis e de propostas, no escritório distrital do Bronx lidávamos sobretudo com a população. No entanto, era um distrito muito pobre. A maior parte dos constituintes dependia da segurança social, nomeadamente de assistência com as rendas e outros subsídios. Era em torno disso que rodava o nosso trabalho. Era interessante, mas havia imensos problemas. Uma das coisas que o Senador tinha de bom é que era mesmo dedicado à população. Ele tinha comités organizados de constituintes com os quais reunia regularmente para saber quais eram as necessidade mais prementes da comunidade, para que assim fosse possível resolver problemas e angariar dinheiro. Para além disso, todos os anos em Setembro o Senador organiza uma grande festa para a comunidade num parque. Era incrível. MP Era muito difícil trabalhar numa comunidade com tantos problemas? SN Bem, sim. Uma das coisas mais frustrantes deste trabalho era o facto de eu não poder fazer muito pelas pessoas. Elas chegavam lá, diziam-me que tinham recebido uma ordem de despejo do senhorio, porque não tinham pago a renda. A maior parte destas pessoas não tinha realmente dinheiro e muitas eram doentes. Normalmente eram pessoas pobres que estavam à espera de receber uma ajuda financeira do estado para pagar a renda. Tinham famílias grandes e poucas formas de a sustentar. E a única coisa que eu podia fazer era um telefonema para saber o estado do processo ou se ia demorar muito, mas só isso. Às vezes havia casos em que com uma carta se podia resolver alguma coisa, mas a verdade é que as leis já estavam feitas, os planos já tinham sido implementados... Apercebi-me que realmente não temos poder nenhum. Foi por esta razão que me interessei pelo planeamento urbano. MP Foi nessa altura que decidiste voltar a estudar? SN Sim. Primeiro pensei em fazer um mestrado em "Política Pública", mas eu sou demasiado idealista e em política pública passa-se o tempo todo a estudar aquilo que já foi feito, as leis e projectos que já foram implementados. É necessário seguir uma linha, fazer as coisas exactamente da forma como foram previstas. Assim, torna-se muito mais difícil ir ao encontro daquilo que cada um de nós gostava de ver feito. Infelizmente, já há muita coisa que vem de trás e que não se pode mudar. Foi por isso que me decidi dedicar ao desenvolvimento económico e das comunidades. Na altura falei sobre isto com um amigo do senador Gonzalez e ele achou imensa graça pois essas palavras - comunidade, desenvolvimento económico eram palavras que se ouviam da boca do senador quase todos os dias. Sobretudo em relação ao desenvolvimento económico do Bronx. As empresas não queriam levar para lá os seus negócios porque a área "era má". Era muito difícil fazer alguma coisa para desenvolver a zona. Agora, felizmente, já está tudo muito melhor, sobretudo em termos de reabilitação das zonas habitacionais. E foi assim que acabei a fazer o mestrado em Planeamento Urbano na New York University.
"Se não se faz tudo o que podia ou devia ser feito é porque muitas pessoas já perderam o entusiasmo" MP E o que fizeste depois de terminar o mestrado? S. N. Há um ano atrás comecei a trabalhar no departamento de transportes da câmara de Nova Iorque, na divisão da segurança escolar. Trata-se de um programa novo, criado pelo Mayor Giulliani, integrado num projecto de melhoria da qualidade de vida e que realmente aposta mais na prevenção do que na resolução como devia ser numa série de outras áreas. O programa tem como principal objectivo aumentar a segurança dos pedestres e reduzir o número de acidentes na cidade. MP E parece-te que estás mais próxima do teu objectivo inicial de ajudar as comunidades mais carenciadas? S. N. Sim e não. A verdade é que eu não tinha pensado seguir a área dos transportes. Achei que ia fazer planeamento para outra área. Mas sem dúvida nenhuma que, claro, aquilo que eu faço agora tem um impacto directo na vida das pessoas e, dentro dessa medida, pode-se considerar como ajuda às comunidades. MP Apesar de te teres afastado um pouco do teu objectivo inicial, estás satisfeita com essa opção? S. N. Sim, se tiver escolha é isto que eu quero continuar a fazer. Apesar de me ter afastado um bocadinho do meu objectivo inicial, o trabalho de planeamento no departamento de transportes tem uma componente técnica que torna as coisas mais reais. Enquanto que a área de desenvolvimento económico é um pouco mais problemática, por razões óbvias: estamos a lidar com o mercado e com uma série de factores mais complexos. Na área dos transportes, se se chegar à conclusão que é necessário fazer uma determinada coisa, faz-se mesmo. Tem efeitos mais directos e imediatos. É mais recompensador. MP Dos teus planos para o futuro faz parte uma carreira política? SN Bem, o que eu gostava era de continuar a fazer serviço público, a trabalhar para o Governo. Sobretudo, porque eu acho que se não se faz tudo o que devia ou podia ser feito é porque muitas pessoas já perderam o entusiasmo e a vontade de tentar mudar as coisas. E eu acho que se houver mais gente determinada e com entusiasmo, as coisas podiam mudar. Mesmo em relação ao Mayor Giulliani, apesar de todas as críticas que lhe têm sido feitas e apesar de eu concordar com algumas delas a verdade é que ele reduziu mesmo a criminalidade e aumentou o nível de vida em Nova Iorque. É preciso determinação. Quanto a uma carreira política, acho que não. Eu não aprecio muito a ribalta a que um político está condenado, gosto mais de estar nos bastidores. Copyright © 1994/99 Mundo Português |
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