logopeq2.jpg (3117 bytes)Primeiro Plano

Joaquim Duarte

De agente secreto do Departamento de Defesa americano a professor de língua e cultura portuguesa

Por António Oliveira (Mundo Português)

Foi agente secreto ao serviço do Departamento de Defesa norte-americano; aprendeu chinês durante a II Guerra Mundial para ser tradutor na planeada mas não executada invasão da China; foi director-assistente de uma companhia aérea, assessor do Bank of America e investigador. Mas seria como professor de professor de língua e cultura portuguesa na Thunderbird, no estado de Arizona, a melhor escola do mundo em "international management", que Joaquim Duarte se reformaria, após três décadas a divulgar aos americanos e businessmen de todo o mundo a realidade da cultura, política e economia de Portugal, do Brasil, da América Latina e dos países africanos de expressão portuguesa. O seu trabalho foi reconhecido em 1996 pela Câmara de Comércio Luso-Americana ao atribuir-lhe o Award of Excellence in Portuguese-American Culture. Hoje com 75 anos, já reformado desde 1995, 30 e tal cursos depois, muitas dezenas de artigos em revistas e jornais, seminários e distinções, Joaquim Duarte continua a ser uma referência na American Graduate School of International Management como professor emirutus, assessor e conselheiro. Desenvolve agora uma actividade privada de investigação centrada em temas lusófonos, finalizando o livro "Antonio Oliveira Salazar of Portugal and Getulio Vargas os Brazil: a link?". Em casa tem mais de 15 mil livros, a maioria sobre temas portugueses, que está a inventariar com vista à eventual doação à Universidade Lusíada de Lisboa e à J. Freitas Library de San Leandro, Califórnia. Está também a organizar uma colecção de cerâmica portuguesa e, não menos importante, cuida da sua mãe, de 90 anos.

Nos anos 50 traduziu para o inglês "A Vida de Joaquim Nabuco" (Stanford University Press) e assinou um artigo sobre o mesmo na Enciclopédia Britânica. Ao longo da sua carreira foi ainda conselheiro e assessor de vários departamentos da Thunderbird, fundador e director do D. Pedro II Center on the Portuguese Speaking World e do International Studies Research Center, da mesma escola, instrutor de língua portugeusa no Departametno de Defesa norte-americano, editor associado da Review of Latin American Bibliography da OAS, em Washington, co-editor da Hispanic American Reporta da Universidade de Stanford, repórter do Brazil Herald, no Rio de Janeiro, etc.

Sobre a sua ancestralidade, Joaquim Duarte apenas diz: "I am one those fortunate people who has the honor to know that I am a portuguese-american and to tell you the truth, I couldn’t be prouder".

Joaquim Duarte Jr. nasceu na cidade de Los Banos, no Vale de São Joaquim, na Califórnia, em Dezembro de 1924, filho único de uma família de açorianos. O seu pai, Joaquim M. Duarte, era natural dos Açores, ilha do Faial, e a mãe, Anna Frances Zorra Silva, de Newport, Rhode Island, também filha de faialenses. "Sou quase puro faialense", diz-nos Joaquim Duarte a brincar. "Os meus avós maternais devem ter emigrado para os Estados Unidos por volta de 1901, porque a minha avó sempre contava ter visto a rainha D. Amélia quando esta visitou a ilha do Faial".

Foi esta avó que marcou para sempre Joaquim Duarte no gosto pela língua e cultura portuguesas.

"A minha avó viveu praticamente toda a sua vida nos Estados Unidos e nunca falou inglês, embora entendesse bem o que lhe diziam", explica Joaquim Duarte. "Acho que nunca aprendeu a língua para conservar a cultura portuguesa", justifica.

O pai de Joaquim Duarte começou por ser ordenhador de vacas nas quintas da Califórnia, mas acabou por comprar uma leitaria onde produzia e vendia toda a espécie de lacticínios. Ele, porém, diz que nunca trabalhou muito com o pai, pois interessou-se desde muito cedo pelo estudo. Aos 17 anos ingressou na Universidade de Stanford, na Califórnia, onde acabaria por conclui um mestrado em Estudos Luso-brasileiros e Hispanos, área da Língua e Literatura Portuguesas, com a tese "História da Organização e Evolução da Marinha Brasileira" (cuja investigação o levou ao Brasil com apenas 22 anos) e mais tarde o doutoramento.

A estada no Brasil, onde permaneceu 18 meses estudando na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, foi possível graças a uma Bolsa de Estudo da Pan American World Airways. Antes, porém, já Joaquim Duarte tinha conhecido outras experiências. Em 1942, em plena II Guerra Mundial, e um ano após ter ingressado na Universidade de Stanford, alistou-se como voluntário da Marinha norte-americana, sendo destacado para trabalhar no serviço de Inteligência, em Washington. "Porque falava português", explica, "meteram-me no Language Training Program a aprender chinês. O objectivo era mandarem-me para a China quando da invasão a este país, que não chegou a acontecer por causa da bomba atómica".

Joaquim Duarte diz que ainda hoje fala a língua quando vai a um restaurante chinês: "Eu aprendi o dialecto «amoy» falado na costa perto da Formosa, porque a invasão estava planeada para aqui".

Curiosamente, o seu colega de quarto na escola militar era um chinês que estava ali a aprender... português. A intenção era ser auxiliar do adido militar americano no Brasil.

Agente secreto americano

Por volta de 1950, Joaquim Duarte voltou a Washington também com uma Bolsa para continuar os seus estudos na Columbus Library da Biblioteca do Congresso. A par disso, volta aos quadros do Serviço de Inteligência do Departamento da Defesa, onde, durante cerca de 5 anos, vive como verdadeiro agente secreto fazendo serviços e investigações sobre as quais "ainda hoje não posso falar", diz-nos.

Em 1956 decide abandonar o Departamento de Defesa e ingressa na secção Latino-Americana da então Braniff Airways, na altura uma das maiores companhias aéreas com ligações ao Brasil e outros países da América do Sul. É estão destacado para o Brasil, onde viria a adoecer gravemente e obrigado a regressar aos Estados Unidos onde é internado no hospital da Universidade de Stanford. Curado, muda-se para outro emprego na secção latino-americana do Bank of America, em San Francisco, onde se manteve como director do "Brazil-desk" até 1962. "Eu era o principal responsável dos negócios deste banco com o Brasil. Fazia prospecções de mercado, economia, política, etc, para justificar investimentos ou outros negócios do banco no Brasil", explica. O seu trabalho à frente desta secção foi reconhecido pela Universidade de Stanford, que o convida a leccionar um seminário sobre o Brasil. Dentro em pouco dava já cursos de "português avançado", que acabaram por suscitar as atenções dos responsáveis da American Graduate School of International Managment-Thunderbird, em Glendale, Arizona, uma cidadezinha nos subúrbios de Phoenix.

Porque esta escola lhe oferecia "carta branca" na organização de cursos em português e seminários sobre Portugal e Brasil, Joaquim Duarte aceitou o convite da AGSIM, acabando por construir nesta escola, como professor, investigador, orientador e chefe de departamento, uma carreira de mais de 30 anos no ensino da língua e cultura portuguesa.

Professor na melhor escola do mundo em «international management»

Para quem não sabe, a American Graduate School or Internacional Managment é uma das instituições de ensino mais prestigiadas e procuradas para fazer mestrados em International Managment, os chamadas MBA’s. De facto, o US News and World Report elegeu-a como a melhor escola do mundo em gestão internacional. O papel de Joaquim Duarte foi abrir as portas da nossa economia a estes futuros "businessmen", mostrando-lhes as vantagens de investir ou manter negócios com o nosso país. Mais recentemente, e após a independência das colónias africanas, Joaquim Duarte começou também a dar seminários não só sobre Portugal e Brasil, mas também sobre os países africanos de expressão portuguesa (PALOP’s). A ele muito se deve sobre a divulgação das economias e culturas destes países nos Estados Unidos e no mundo, uma vez que a AGSIM é anualmente frequentada por milhares de alunos vindos de todo o lado. Um desses seus alunos foi Luís Pedro Lobo Guerra, filho do professor Francisco Carvalho Guerra, reitor da Universidade Católica Portuguesa do Porto. Joaquim Duarte lamenta que ao longo da sua carreira de 30 anos tenham, porém, sido poucos os alunos de nacionalidade portuguesa na Thunderbird: "Tivemos muitos alunos mas do Brasil", diz. "E nos últimos anos dos PALOP’s, alunos que vêem com Bolsas de estudo e que depois voltam aos seus países".

Mas a sua carreira não foi só feita de ensinar a língua e a cultura portuguesa. "Em 30 anos eu ensinei 33 cursos diferentes, criando a maioria delas, como seminários sobre a cultura latino-americana, sobre Portugal, Brasil, PALOP’s, etc", explica. "Os nossos alunos são obrigados a frequentar um curso de língua estrangeira, onde aprendem a história, a política e a cultura de vários países do mundo, uma vez que um futuro MBA tem de conhecer a realidade internacional". Joaquim Duarte diz que 50% dos cerca de 1.500 alunos da Thunderbird são oriundos de 100 países diferentes, o que prova o prestígio desta escola. De tal modo que antes de concluírem os seus cursos já uma boa parte dos alunos têm emprego garantido, uma vez que companhias de todo o mundo ali vão requisitar a sua mão-de-obra anualmente.

Actualmente com 74 anos de idade, já reformado desde 1995, Joaquim Duarte é um professor Emeritus da Thunderbird, continuando ligado ao ensino como conselheiro e orientador de seminários, sobretudo com Portugal. A escola organiza anualmente um seminário em Portugal e Espanha onde os estudantes da Thunderbird discutem com professores e homens de negócios a realidade da economia portuguesa e ibérica. Joaquim Duarte tem sido o orientador destes seminários nos últimos 9 anos.

Vigiado pela PIDE

E apesar de ter nascido nos Estados Unidos, é sempre com gosto e uma pontinha de muito orgulho que ele volta a Portugal e fala da cultura portuguesa. Hoje para encontrar um "país moderno e muito diferente" daquele que conheceu nos últimos anos do Estado Novo. A propósito, ele conta um pequeno episódio que lhe aconteceu no fim dos anos 60, quando se deslocou a Portugal para fazer uma investigação sobre a política do governo de Salazar:

"Não foi muito fácil, eu sei que a PIDE controlava os meus movimentos. Quando cheguei a Lisboa, telefonei para um meu amigo no Ministério dos Negócios Estrangeiros que era suposto esperar-me no aeroporto. Acabei por ir para o hotel e só quando ali cheguei é que notei que me tinha esquecido da carteira contendo dinheiro, documentos, passaporte e tudo o mais na cabina telefónica do aeroporto. Voltei lá imediatamente e tudo me foi entregue em perfeitas condições por uma senhora da secção de perdidos e achados. Eu disse-lhe então que estava com medo que as coisas tivessem desaparecido e ela respondeu-me simplesmente «Não, aqui todos estão vigiados, por isso, nada desaparece». E de facto assim era. Na minha próxima visita, logo após a revolução de 74, verifiquei que as coisas já eram muito diferentes".

Livros na forja

Para além do livro citado na introdução, Joaquim Duarte prepara ainda um outro livro sobre "a cultura económica portuguesa", que é um dos assuntos que o apaixona. Duarte defende que os portugueses foram os primeiros "global businessmen" do mundo e os primeiros a fazerem "joint-ventures".

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