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As Aventuras de Manuel Hollywood (2º capítulo) Na cidade dos Anjos...
Um avião aterra no aeroporto internacional de Los Angeles. Junto a saída das chegadas internacionais, uma enorme limousine aproxima-se do terminal.Manuel sai nesse momento do terminal e olha fascinado em redor, pousando uma mochilaque é toda a sua bagagema seus pés. A longa limousine de vidros negros para mesmo em frente de Manuel. O motorista sai, dá a volta ao carro e abre a porta mais próxima de Manuel, revelando um interior sumptuoso, onde, sorrindo radiosamente e estendendo os braços para ele, num gesto afectado, está Susie. Antes que o estupefacto Manuel tenha tempo de reagir, o motorista pega na sua mochila e faz-lhe sinal para entrar para a limousine. No interior do sumptuoso veículo, Susie fala, num tom profissional e eficiente, enquanto marca um número no telefone da limousine. "Olá querido! Estou tão contente por teres vindo. Vou já telefonar ao David Hasselhoff para ele te arranjar um papel no Bay Watch..." Susie dá um beijo rápido a Manuel e começa a falar ao telefone. "Olá! David! Sou eu, a Susie. Escuta, tenho aqui comigo o campeão dos salva-vidas Portugueses e gostava que lhe arranjasses um papel na série..." Manuel continua atónito. Olha para o exterior e pela janela pode ver passar as famosas lojas do Rodeo Drive, em Beverly Hills. Volta a olhar para a Susie e esta sorri-lhe, enquanto continua a conversa ao telefone. "Sim, ele é um grande actor na tradição latina do Antonio Banderas... Eu sei que tu também és um grande actor, e acho que juntos, vocês fariam um belo par". O estupor de Manuel começa a desvanecer-se lentamente; volta a olhar pela janela, onde passam o teatro Chinês e o passeio das estrelas no Hollywood Boulevard. A Limousine para. As portas abrem e um grupo de pessoas começa a entrar para dentro da limousine. Demasiado atónito para poder reagir, Manuel limita-se a olhar para o numeroso grupo que entra para o veículo: uma senhora idosa, dois punks, um vagabundo, um homem de fato, uma mulher obesa com sacos de compras, e dois rappers... Manuel acorda. Não está em nenhuma limousine, mas sim dentro de um autocarro de transporte público de Los Angeles. As pessoas que ele viu entrar durante o sonho estão de facto a entrar para o autocarro, que estava praticamente vazio, e a sentar-se em redor dele. Manuel olha em redor um pouco confuso pelo sonho, mas lentamente volta à realidade, enquanto o autocarro circula num bairro degradado de Los Angeles. Na paragem seguinte, Manuel desce do autocarro e olha em redor. Encontra-se numa rua degradada, com casas em ruínas, consequência de um terramoto. Ao longe, um pouco escondidas pelo smog, podem ver-se as letras HOLLYWOOD no topo das montanhas. Manuel tira do bolso um papel com a direcção de Susie, escrita pela própria na última noite em Portugal, e começa a andar lendo o número de porta das casas. Para numa casa, cujo número coincide com o do papel. A casa está em ruínas e um sinal anuncia: "Não trespassar Prédio condenado a demolição Perigo". Manuel volta a guardar o papel e olha para a casa desiludido. O sol põe-se no horizonte, banhando a rua vazia com uma luz alaranjada. Noite. Manuel caminha cabisbaixo no Hollywood Boulevard. O passeio está sujo e repleto de pedintes e marginais. No rosto de Manuel cresce a desilusão. Joe, um vagabundo negro, empurra um carrinho de super-mercado, cheio de latas vazias, jornais, revistas e lixo variado. "Hei, hei, tens uns trocos irmão?" dirige-se a Manuel. "E pá, eu acabei de chegar", responde Manuel ainda abalado. "Acabaste de chegar? De onde?" "De Portugal". "De onde? E o que é que estás a fazer aqui? Queres ser um advogado? Não, talvez músico... deixa ver se tenho aqui alguma coisa para ti, notícias de desporto? Financial Times?" Joe remexe no amontoado de jornais e revistas que transborda do carrinho, mas Manuel faz-lhe sinal para parar. "Não obrigado, não preciso de nada." Joe insiste. "Já sei! Tu és um actor! Tenho aqui a coisa perfeita para ti: o BackStage." Ele tira uma cópia do semanário sobre teatro e cinema, BackStage. "O que é isso?" inquire Manuel. "O que é isto? Porra meu! Queres entrar num filme? Queres ter trabalho amanhã? Isto é a tua Bíblia! Este jornal tem todos os castings..." "A sério?! Quanto custa?" Joe pensa por instantes e estende-lhe o jornal com um ar cúmplice. "Como é para ti, fica em 4 dólares". Manuel procura nos bolsos e estende-lhe uma nota de cinco dólares, que Joe agarra rapidamente, enquanto lhe passa o jornal para as mãos. "E pá, não tenho troco...". "Deixa ficar!" "Obrigado, bacano. Como é que te chamas?" "Manuel." "Lembra-te de mim quando fores uma vedeta, fui eu que te dei o primeiro empurrão!". Joe afasta-se, empurrando o carrinho. Manuel vai caminhando e lendo. Quando ergue os olhos do jornal está frente a um Coffee Shop, no qual entra. A clientela do coffee shop são sobretudo jovens, a maioria com um visual "grunge", sentados em mesas ou encostados ao balcão. Manuel caminha entre as mesas, na direcção de Jody,- uma rapariga atraente de vinte e poucos anos- que está junto ao balcão, lendo um número diferente do Backstage. Ele para em frente de Jody, sem reparar nela, pois fita, com um embasbacamento mal disfarçado, os brincos, cabelos e roupas dos clientes do café. De súbito o seu olhar cruza-se com o de Jody, que entretanto erguera os olhos do jornal, e apercebem-se que lêem ambos o BackStage. Ela sorri e Manuel corresponde. "Olá!" diz Jody, com a habitual simpatia superficial angelina. "Oh, olá!", responde meio atrapalhado Manuel. "Com que então..." Ela suspende a frase, enquanto o olha de alto a baixo "... também és um actor". "É verdade, acabei de comprar o BackStage", responde Manuel exibindo com orgulho o seu jornal. Jody ri-se, irónica e aponta para um anúncio de casting. "Frog face"! Vi este filme o ano passado". Manuel fica preocupado: "O que queres dizer com isso? Diz aqui que vai começar o casting!" "Começou sim, mas há um ano atrás". "Há um ano?! Mas eu acabei de comprar o jornal!" Jody toma-lhe o jornal das mãos e aponta para a data na capa. A data é obviamente do ano anterior. "Aquele gajo!...". Manuel sai a correr para a rua. Olha em volta mas a rua está deserta. Jody seguiu-o até à rua. Manuel apercebe-se agora do preço marcado na capa do jornal: "$1.50". "E paguei eu 5 dólares por isto..." Ela dá-lhe uma palmada nas costas. "Tu não és de cá, pois não?" "Acabei de chegar". "OK, vamos fazer um acordo, pagas-me uma bebida e eu deixo-te usar o meu BackStage". Manuel sorri tristemente. "Obrigado". "Eu chamo-me Jody Miller! "Eu sou o Manuel". Sorriem ambos. Mais tarde, nessa noite, os dois caminham junto às pegadas das estrelas em frente ao famoso cinema Manns Chinese Theatre. Manuel está excitado a ver as pegadas das celebridades. "Ei, estas são do Harrison Ford!" Coloca cuidadosamente o seu pé sobre a pegada de Harrison Ford e constata: "Calçamos o mesmo número". Jody sorri-lhe. "Então diz lá, um dia decidiste sair de Portugal e tornares-te actor aqui?" Manuel aproxima-se dela. "Bem, para dizer a verdade, conheci uma miúda que é actriz, mas acho que ela se enganou no endereço..." Estende o pedaço de papel a Jody "Fui aí, mas é um prédio em ruínas, destruido pelo último terramoto". "O último terramoto grande já foi há uns anos..." "Então ela deve-se ter enganado na morada", justifica Manuel "Ou deu-te uma morada falsa..." sugere Jody "E porque é que ela havia de fazer isso?" "Vocês andavam juntos?" "O que é que queres dizer?" "Se andavam a curtir..." "Acho que era mais do que isso". "Talvez ela não fosse da mesma opinião". "O que é que estás a dizer? O que existiu entre nós foi muito forte". Jody concede, vista a reacção de Manuel: "Pronto, pronto. E então, o que pensas fazer?" "Procurá-la. Arranjar um trabalho." "Tens dinheiro?" "Algum". "E tens onde ficar?" "Não, acabei de chegar". "Bem, acho que podes ficar na minha casa, se não te importares de dormir no sofá". "Não te importas? Isso era porreiro!" Mas subitamente Manuel mostra-se desconfiado. "Ei, espera lá, como é que eu sei que não és como o outro gajo que me enrolou com o jornal?" "Tens uma lata, até me sinto ofendida! Eu é que devia tomar precauções, tanto quanto sei podes ser um assassino psicopata!" "Um assassino psicopata não seria enrolado como eu fui". "Bom, então acho que só te resta confiar em mim". Manuel olha para o chão, para as pegadas gravadas no pavimento. "OK. E amanhã começamos a procurar Susie?" "É esse o nome dela? Estás mesmo apanhado por ela..." "Eu amo-a". "É melhor desabituares-te disso, estás em LA! Vamos embora, está a fazer-se tarde." Afasta-se e Manuel segue-a, lançando um último olhar às marcas no cimento. Continua na próxima edição Copyright © 1994/99 Mundo Português |
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