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Por Onésimo Teotónio de Almeida Uma sondagem entre os críticos americanos considera Shakespeare in Love o melhor filme do ano transacto. Quando estas linhas chegarem às mãos dos leitores já terão sido abertos os envelopes dos Oscares. Não interessará a ninguém a minha opinião sobre tão agradável película (:>). Shakespeare é como o império inglês onde o sol nunca se punha ( e que a propaganda salazarista plagiou): está sempre em cena em qualquer parte do mundo. O filme, com o dedo inventivo e o humor de Tom Stoppard, reatou por todo o lado a velha questão sobre quem terá sido Shakespeare, de quem tão pouco se sabe. No New York Times, nada mais nada menos do que Stephen Greenblatt , de Harvard, veio contar que em tempos foi abordado como consultor para um filme biográfico sobre o bardo, por um cineasta a quem o shakespeariano demonstrou que os famosos sonetos do poeta tinham sido dedicados a um jovem. Sugeria por isso Greenblatt a reconstrução fílmica de uma biografia condizente, com base na hermenêutica shakesperiana mais actualizada. O realizador nunca mais o contactou. (Esse tema, aliás, não é novo. Veja-se o livro Alias Shakespeare, de Joseph Sobran,1997). Se a vida de Shakespeare é uma incógnita, o filme tem proporcionado todo o tipo de conjecturas em jornais e revistas, embora quase sempre repetindo batidíssimos clichés. (A propósito, lembra-me a do outro que, farto de ouvir falar em Shakespeare, foi lê-lo. Não se impressionou: "O tipo só repete clichés!" O coitado desconhecia que, como disse Henry Cuyler, Shakespeare só escreveu coisas para serem citadas. O que traz também Orson Welles à colação: "A gente aguenta as peças de Shakespeare só para reconhecer as citações.") A revista Time revisitou há semanas a teoria oxfordiana, segundo a qual o autor das famosas peças teria sido Edward de Vere, 17º Earl of Oxford, elaborando uma lista impressionante de coincidências. Na opinião de alguns, só um nobre e, sobretudo, educado em Oxford, teria os conhecimentos revelados nas peças. Os tradicionalistas, porém, contrapõem argumentos aparentemente de maior peso. Não vou intrometer-me no debate por razões óbvias. Falece-me qualquer autoridade. Na minha vasta ignorância, atrever-me-ei a concluir apenas como (se não estou em erro) G. Bernard Shaw: não foi Shakespeare quem escreveu aquelas peças, mas sim um outro indivíduo, por sinal chamado também William Shakespeare. (Se não foi G. B. Shaw a dizê-lo, assenta-lhe bem). Mas a controvérsia não deixa de fascinar muita gente e divertir consumidores de histórias como eu. Por acaso no debate não surgiram por enquanto os baconianos, que no século passado juravam a pés juntos ter sido Francis Bacon o real autor. Mark Twain também na acreditava na autoria shakespeariana. Curiosamente, o seu último livro foi um longo ensaio sobre a misteriosa identidade do dramaturgo. "Shakespeare não sabia que era escritor e ninguém lho disse depois de morrer." Tendo ele próprio usado toda a vida um pseudónimo literário, o assunto parecia intrigá-lo sobremodo. De uma vez, numa visita a Londres, Mr. Clemens (nome real de Twain) foi convidado a jantar por um grupo de baconianos, que o tomavam por um dos seus. Cientes do facto de Samuel Clemens rejeitar a autoria shakespeariana das peças, ouviram-no com interesse. Twain desapontou-os, porém. Um dos presentes atreveu-se a perguntar quem era então, na opinião dele, o verdadeiro autor das peças de Shakespeare. A resposta veio sem hesitações: Hei-de esperar até chegar ao céu para então perguntar a Shakespeare quem as escreveu. Não acredito, Mr. Clemens, que vá encontrar Shakespeare no céu! - atirou-lhe um snob comensal. E Mark Twain sem pestanejar: Então pergunte-lhe você! A controvérsia vai prolongar-se. Quanto ao filme, vale a pena ver-se. Dele se poderá repetir o que Robert Graves disse do próprio Shakespeare: o notável em Shakespeare é ele ser de facto muito bom, apesar de toda a gente dizer que ele é muito bom. Ler (Círculo de Leitores)
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