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DAN SIMÕES Ele participou directamente nos primeiros passos da Internet Por António Oliveira Dan Simões é filho de pai português e mãe americana. O pai é natural do Luso, concelho de Anadia, e a mãe é de descendência italiana. Ele já nasceu nos Estados Unidos, em Yonkers, NY, onde viveu até fins dos anos 80, altura em que o seu pai decidiu regressar a Portugal. Dos Estados Unidos a Portugal e vice-versa "Na altura, o meu pai decidiu que era melhor para a família, especialmente para mim e para a minha irmã, irmos para Portugal para podermos ter contacto não só com a sua cultura, mas com outra maneira de viver, outros valores, além dos que já conhecíamos na América", explica Dan Simões. "Fomos para Portugal, para a pequena aldeia do meu pai, Carvalheira, um pequeno lugar de meia dúzia de casas perto das termas do Luso", continua. "Ali vivemos até 1988, altura em que eu decidi que queria voltar aos Estados Unidos para aqui frequentar a Universidade". E assim foi: a família Simões faz as malas e regressa de novo aos Estados Unidos, onde ainda hoje vive. De Portugal, Dan recorda a vida calma, o liceu, os lugares que hoje lhe deixam uma saudade capaz de o fazer regressar um dia. Ele explica: "A minha estada em Portugal foi sempre um bocado forçada. Eu já tinha 10 anos quando fui e a integração nunca foi fácil. Nessa idade eu não ligava a coisas como a natureza, que não faltava na aldeia para onde fui viver, e tinha falta daquelas coisas americanas que fazem as delícias de qualquer jovem". O choque da aldeia Por outro lado, a transição de um meio urbano para uma pequena aldeia portuguesa foi um choque terrível para todos: "Sair de uma cidade relativamente grande, como Yonkers, para ir viver para uma aldeia que na altura tinha umas 15 casas, onde a água vinha de um poço do quintal que muitas vezes secava no Verão, obrigando-nos a ir à fonte com baldes, a aquecer a água para tomar banho, não é propriamente um cenário muito atractivo para um jovem de 10 anos, habituado aos confortos da América", diz. Mas havia outras diferenças: "Como o meu pai voltou a trabalhar na agricultura, aos fins de semana o meu trabalho era sempre ajudá-lo nisto ou naquilo". Por outro lado, Dan não dominava a língua: "Não falava praticamente nada de português, aprendi lá quase a martelo, como se costuma dizer". Mesmo assim, Dan fala hoje correctamente português, sem qualquer pronúncia ou influência do inglês. Isso deveu-se aos oito anos que passou no liceu. "Naquela altura não havia apoios para alunos que não falassem a língua portuguesa, foi a minha mãe, pai e amigos que me ensinaram. Não foi fácil". Fácil também não foi a integração na cultura portuguesa: "Ainda me recordo uma vez que tratei a professora por tu, pois estava habituado aos verbos da língua inglesa, que não fazem a diferenciação entre tu e você, como o português. Foi uma galhofa para os meus colegas e professores", diz. Mesmo assim, Dan faz o liceu sem dificuldades, acabando por se adaptar à maneira de viver portuguesa. O seu sonho era ser médico dentista, mas cedo concluiu que em Portugal era necessário uma nota muito alta para entrar na Faculdade de Medicina. "Como não podia entrar no curso que queria e sempre tive interesse pela informática, resolvi que era melhor voltar aos Estados Unidos e aqui decidir o que fazer". Assim fez. Uma vez nos Estados Unidos, Dan reinicia os estudos, matriculando-se no Westchester Community College num curso de Informática, onde esteve um ano. Muda-se depois para o Manhattan College e a seguir para o Vassar College, em Poughkeepsie, onde continua na mesma área. Ainda durante os estudos, consegue então um "internship" na Ciba Geigy, durante o Verão, já a trabalhar em Informática, decidindo voltar ao Manhattan College, onde termina o curso. A informática A entrada de Dan no mundo do trabalho não podia ter sido melhor: as suas qualidades no domínio da Informática são reconhecidas pelos superiores e dentro em pouco, ainda a estudar, ei-lo já num lugar do gigante IBM, em Yorktown, no departamento de investigação. "Trabalhei na IBM durante cerca de um ano, até concluir o curso", explica Dan. "Depois fui para a ANS, de Elmsford, NY, uma empresa formada pela IBM, MCI e a Universidade de Michigan. O seu objectivo era gerir esta rede que então dava os primeiros passos". Foi aqui que Dan teve a oportunidade de participar no nascimento da Internet: "Na altura, o que havia era uma rede usada pelas universidades para se fazer pesquisa e investigação a nível académico. Este rede não era utilizada pelas empresas, portanto não era comercializada. Com a mudança das leis, as coisas mudaram um pouco e a rede começa a ser comercializada. O resto é história". Dan participou assim no nascimento da maior rede de comunicações do mundo, acabando por ser um interveniente activo: "Quando trabalhava na IBM tinha em casa um computador que já estava ligado a uma rede. Não era ainda a Internet, mas era o precursor dela, servia apenas para pesquisa. Só que já nessa altura era possível comunicar à escala mundial. Era assim: o meu computador ligava o do meu vizinho, trocava informação, este ao outro e por aí fora. Chamava-se a esta rede a UCP. Era uma forma de divulgar a informação a baixo custo, uma vez que para mim a chamada era local, para o meu vizinho e mesma coisa e por aí fora". Curiosamente, a comunidade lusófona já estava ligada, ou pelo menos comunicava entre si, através desta rede. "Havia uma lista, uma espécie de mailing list, chamada PTNET, que juntava emigrantes e outros portugueses que se dedicavam à investigação no estrangeiro. Nós trocávamos informações, notícias, tudo o que calhava, até receitas de culinária", explica o Dan. Dan Simões continuou na ANS durante mais alguns anos. Em 1994 a empresa é adquirida pela American OnLine e mais tarde vendida à World Com, que acabou por se fundir com a MCI formando a MCIWorldcom, um gigante mundial das comunicações. "Na MCIWorldcom eu montava principalmente os sistemas de Unix, ou seja, o background, aquilo que faz andar a Internet. Por detrás das páginas de cada site há todo um processo complicado de computadores que comunicam entre si numa outra linguagem, permitindo que o que recebemos no nosso computador seja para nós inteligível. Ninguém imagina o que está por detrás disso. A minha tarefa é montar esses sistemas e zelar para que eles funcionem sempre bem". Tarefa que não é fácil. Para dar uma ideia, Dan explica-nos que quando começou a trabalhar na ANS a empresa tinha 60 trabalhadores; hoje, a MCIWorldcom possui mais de 60 mil. Contribuir com o seu trabalho para o progresso "A gente perde-se um bocado numa empresa tão grande", diz-nos. E como ele sempre gostou de novos desafios e de ser pioneiro, acabou por mudar recentemente para a I Click, de Ardsley, NY, uma nova empresa que se dedica à produção de software e tecnologia para o mercado de Human Resources. "É uma tecnologia que nasceu há pouco e está a dar os primeiros passos. A empresa foi fundada há 3 anos por dois colegas que trabalhavam comigo na MCIWorldcom. Fundamentalmente, trata-se de prestar um serviço às grandes empresas nestes termos: permitir que qualquer trabalhador possa aceder a estas páginas e saber tudo sobre a sua ficha de trabalhador, saber das suas regalias sociais na firma, descontos para a reforma, férias, planos de poupança, seguros de vida e coisas do género. Pode também controlar exactamente as mudanças e alteração da sua situação como trabalhador, quando tem filhos, por exemplo. É uma tecnologia muito recente que tem como fim facilitar ao empregado a obtenção das informações sobre os benefícios que a empresa lhe oferece, permitindo reduzir os custos de gerência desse departamento". Actualmente, a I Click tem cerca de 30 empregados, mas dentro de um ano espera aumentar os seus quadros para 90. "Sempre gostei muito de trabalhar numa empresa pequena, onde pudesse contribuir com o meu trabalho para marcar a diferença. Cada um tem o seu trabalho, mas sabe-se o que todos fazem, trocam-se ideias e sente-se que participamos no futuro, o que numa empresa tão grande como a MCIWorldcom era mais difícil", diz Dan, justificando a mudança de trabalho. "Na I Click sou aquilo que se chama em inglês Gerente de Sistemas, Tecnologia e Arquitectura". Um título grande que ele explica desta maneira simples: "Significa que quando há um problema nos sistemas, mesmo às 2 da manhã, sou eu que tenho de lá ir resolvê-lo". Um trabalho de grande responsabilidade que Dan encara de uma forma natural: "O meu objectivo é ajudar a fazer crescer a empresa, participar nesse processo com as minhas ideias e trabalho". A educação continua Para isso, Dan não descurou o estudo: actualmente está a concluir na New York University um curso de Marketing e Negócios Internacionais, áreas que lhe surgiram associadas à informática quase de uma forma natural. "Nos trabalhos por onde tenho passado sempre me disseram que tenho ideias boas. Se puder associar isso à informática e à experiência de falar outras línguas e viver em outro país, caso de Portugal, penso que posso ser útil". Planos para voltar a Portugal? "Há oito anos, se me perguntassem isso, dizia imediatamente que não. Hoje, penso que mudei um pouco. Há poucos anos, quando numa visita a Portugal mostrei aqueles lugares da minha juventude à minha esposa, americana, senti o país de forma diferente. No passado, parece que nunca estive ali por minha própria vontade; agora, vi as coisas noutra perspectiva, e gostei. Por isso, apesar da americanização, com Macdonalds e outras coisas do género, ter feito perder ao país um pouco do charme de outrora, voltar a Portugal é uma hipótese que está aberta". Hoje, Dan considera que aqueles trabalhos que aprendeu a fazer na infância, na aldeia do seu pai, deram os seus frutos: "Foi graças a eles que aqui nos Estados Unidos consegui fazer reparações na casa que comprei, plantar as árvores e criar uma horta", diz. "Quando em pequeno eu me chateava por fazer esses trabalhos, a minha avó sempre me dizia «espero que um dia arranjes um trabalho muito bom para não teres de fazer isto». Hoje penso que se ela estivesse viva e visse o meu quintal se sentiria orgulhosa de mim". A paixão pelos carros O bichinho da informática acaba por ser presença constante na vida da Dan Simões, que em casa possui o seu próprio sistema e servidor de Internet, com linhas de telefone ISDN. Ali estão duas páginas que todos os dias são acedidas por dezenas de cibernautas, dedicadas a duas marcas de automóveis das quais Dan é fan: a Audi e a VW. O seu endereço é www.audifans.com e www.vwfans.com. O entusiasmo pelos carros, recorda Dan, trouxe-o de Portugal quando, jovem, ia ver o "rallye" de Portugal passar na serra do Buçaco. Nos Estados Unidos, além de ter um Audi e um VW, possui também um moto BMW, com a qual faz viagens frequentes pelo país. Mas não só o gosto pelos carros o liga a Portugal: também a música. Em 1994 foi o primeiro fan dos Madredeus a criar uma página do grupo na Internet, que o levou a conhecer o grupo quando da sua actuação em New Jersey. Luso-americano? Curiosa é a forma como Dan sentiu a sua juventude. Nasceu nos Estados Unidos, mas aos 10 anos, em Portugal era considerado estrangeiro, o americano; aos 18, nos Estados Unidos, por ter assimilado outra cultura, era considerado europeu. E hoje, como se sente, americano ou português? "Penso que sou as duas coisas. Claro que sou americano, nasci aqui e identifico-me com muitas coisas, mas à medida que vou envelhecendo, digamos assim, acho que vou apreciando mais a cultura portuguesa, pelas tradições, pelas coisas boas. Penso que agora é possível reflectir um pouco naquilo que o meu pai queira que eu aprendesse de Portugal, quando para lá me decidiu levar". A INTERNET Como se disse, Dan Simões participou e assistiu ao nascimento da Internet. A empresa em que trabalhava na altura foi uma das primeiras fornecedoras de acesso à rede e ele era o responsável pela montagem e manutenção dos sistemas. Ela explica como tudo começou: "No princípio a Internet era uma forma das universidades comunicarem entre si. Com a mudança das leis e a constatação da utilidade da Internet, o serviço começou a ser comercializado, e o resto já se sabe. Mas o que causou realmente a explosão da Internet foi a criação, na Suíça, do protocol www e o aparecimento de um software chamado Mosaique, uma espécie de Netscape ou Internet Explorer dos nossos dias. O Mosaique foi o pai de todos estes produtos, permitindo a grande explosão da Internet, uma vez que agora era possível publicar informação com imagens, cores, gráficos, fotos, etc. E era também fácil de manusear". E sobre aqueles que acusam a rede de ser má influência, Dan responde: "A Internet é uma tecnologia e ferramenta como qualquer outra. E tal como os pais devem sempre manter o olho nos filhos para saber que tipo de televisão e de música estão a ouvir, também o devem fazer no caso da Internet". Não concorda, por isso, com o controlo da rede por parte dos governos: "Não, de maneira nenhuma, há vários programas para controlar o acesso de crianças aos sítios da Internet de cariz sexual ou violento. Por outro lado, cabe também aos pais saber de que forma o filho usa a Internet e, para isso, uma boa solução é não colocar o computador do quarto do filho, onde ele se pode isolar durante horas". "O futuro está na Internet", acrescenta, "que veio mudar a forma como nós lidamos com as empresas, consumidores, etc. As nossas próprias vidas também foram alteradas. Os meus contactos, hoje, são feitos sobretudo por e-mail. De tal forma que já se tornou uma rotina chegar a casa e verificar as mensagens na máquina atendedora de chamadas e logo de seguida no e-mail do computador"
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