logopeq2.jpg (3117 bytes)   OPINIÃO-EDITORIAL                    

Brincar às guerras

Por Artur Ribeiro

Porque é que as crianças brincam às guerras? Pode parecer uma pergunta "naif" mas surgiu-me quan-do recentemente observava uma criança a brincar com uma espada, escudo e capacete romano num centro comercial. Quem não brincou às guerras? Eu próprio lembro-me da excitação que era quando arranjava uma nova metralhadora, espingarda, pistola, ou espada, e as aventuras que "vivia" através da encenação de batalhas imaginárias. Acontece que ultimamente, como hobbie, tenho-me dedicado a estudar a história militar das antigas civilizações e impérios, e estas leituras, contrastadas com a imagem da criança trespassando imaginários inimigos com a sua espada de plástico, despertaram esta reflexão.

Que elemento lúdico existe numa guerra?

De Herodoto aos historiadores modernos, as descrições das batalhas e guerras primam pelos detalhes de carnificinas, violência e barbáries de tal forma repulsivas (apesar de serem fascinantes em termos narrativos, confesso) que me deixam a pensar como é que essa realidade dura e crua se pode transformar numa brincadeira? Que elemento lúdico existe na guerra para ser um dos divertimentos favoritos de gerações?

Neste momento, em que às portas do século XXI assistimos na Jugoslávia a uma "guerra" e um conflito étnico semelhante aos tempos dos livros que ando a estudar (e que de certa forma, historicamente, remonta a essas datas); com os horrores a que assistimos na televisão e com aqueles que não assistimos mas podemos imaginar (se é possível imaginar os que se passam e não se vêem), mais peso ganha esta questão de que elemento lúdico pode existir num confronto mortal entre nações.

Niall Fergunson, um historiador inglês, dedica um capítulo do seu recente livro sobre a primeira guerra mundial, "The Pity of War", à controversa teoria de que os soldados, de ambos os lados, lutaram durante tanto tempo porque muitos deles na verdade gostavam de matar (quer por razões de vingança quer por puro "desporto"). Com esta teoria Fergunson quer sublinhar que a verdadeira tragédia da guerra é que transforma soldados que à partida são seres humanos equilibrados e decentes em indivíduos moralmente vazios e em assassinos impiedosos.

Nunca estive na guerra nem próximo dela, mas perante os relatos dos horrores que nos chegam (e não só no caso do Kosovo mas em todas as guerras ao longo dos séculos, desde os primórdios da civilização) pergunto-me se de facto a insanidade de um conflito deste género leva a essa transformação. Pergunto-me se — como para nós que no séc. XX achamos bárbaro o que se fazia com a maior das naturalidades séculos atrás — os soldados nas montanhas do Kosovo vivem outra realidade, em que abater à queima-roupa homens, mulheres e crianças, se tornou numa diversão, numa actividade lúdica. Por muitas desculpas político-históricas que se possam expressar sobre o conflito e sobre os massacres, é a acção do indivíduo que carrega no gatilho para tirar a vida a um outro ser humano — que no caso dos civis assassinados, não é uma questão de legítima defesa — que cria mais incompreensão. O que faz um ser humano, igual a mim ou ao leitor, ser capaz das atrocidades que se cometem por esse mundo fora?

Da Jugoslávia ao Colorado

Não é preciso ir à Jugoslávia para fazer estas perguntas. O mês passado, numa escola do Colorado, dois jovens (os mais recentes protagonistas de uma série de acontecimentos que infelizmente começam a ser cada vez mais frequentes) entraram na sua escola para abater a tiro e à bomba os seus colegas e professores indefesos. Nitidamente, devem ter tido prazer no que fizeram. Salvaguardando as diferenças estruturais, será que podemos colocar as desculpas dos adolescentes assassinos de que os colegas os tratavam mal e de que eram marginalizados na escola, ao mesmo nível das razões político-sociais-históricas dos conflitos internacionais, do Kosovo a Timor-Leste? E podemos aceitar o comentário de um ministro jugoslavo que admite que por vezes possa haver excessos por parte dos soldados no Kosovo, mas que não existe genocídio? A culpa das atrocidades da guerra, de todas as guerras, é dos soldados no terreno ou dos líderes que dão as ordens e os enviam para a frente de batalha?

Se a culpa do que se passa no Kosovo é unicamente do presidente sérvio Milosevic, ou, se segundo os sérvios, é unicamente culpa de Bill Clinton, não seria bom se fosse possível resolver o conflito colocando ambos num "ringue" de luta livre e deixar que o conflito se resolva à custa do seu próprio sangue, poupando a vida de inocentes civis e evitando a perigosa transformação de um ser humano numa máquina de matar?

Mas infelizmente, as coisas não são assim tão simples, e para já, a verdade é que se está a gastar 2 mil milhões de dólares por mês neste conflito e, à data em que escrevo este texto, as coisas não parecem melhorar.

Se comecei este texto com uma pergunta ingénua, termino com outra: será que o dinheiro gasto nos bombardeamentos não seria suficiente, ou pelo menos um ponto de partida, para uma solução ou ajuda económica à região e encontrar um lugar para todos: sérvios, albaneses, croatas, bósnios e, no resto do mundo, timorenses, indonésios, ruandeses, angolanos, etc?

O pior é que esta solução traz outro problema (que já está presente em muitos cantos do mundo). Como vivemos num mundo materialista, o que aconteceria é que os bombardeamentos estratégicos seriam substituídos por "subornos" estratégicos, "compra" de políticos e nações, etc. Mas entre dois males, qual será o menor?

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