wpeB076.TMP.gif (3869 bytes)FICÇÕES

As aventuras de Manuel Hollywood (1º capítulo)

"Babe-Watch" nas praias do Algarve...

Por Artur Ribeiro

  

É um tépido dia de Verão. A praia está repleta da fauna típica do mês de Agosto no Algarve: alguns turistas estrangeiros, uns "nuestros hermanos" espanhóis, as "tias" de Cascais, os portugueses do norte do país (que passam o ano a falar mal do Algarve e a chamar "mouros" aos seus nativos, mas que na primeira oportunidade alugam o apartamento mais pindérico na zona mais urbanizada e toca a jogar à bisca nos areais ensolarados), e por último, os locais, algarvios de gema, que partilham o Verão entre trabalhos sasonais e o ocasional engate, que em tempos era só de suecas, mas que hoje em dia, em tempos da União Europeia, é mais "tudo-o-que-vem-à-rede-é-peixe".

Imagens dignas de postais ilustrados desfilam pelo extenso areal. Na zona dos toldos, silhuetas de esculturais corpos femininos em bikini passam em contra-luz, com o mar brilhando ao fundo; jovens atléticos aos saltos, e em poses dir-se-ia coreografadas, expõem abdominais e músculos na dança de um jogo de futebol ou volley-ball; a mão de um namorado babado bezunta de creme a pele macia e bronzeada da namorada que lê a última edição da Maria; mais adiante, na zona dos chapéus-de-sol, algumas famílias obesas, carregando malas térmicas, garrafões de vinho e cestos de pic-nic, assentam arraiais em areias cobertas de lixo.

A dividir estas duas zonas ergue-se uma torre de madeira, à sombra da qual um grupo de quatro nadadores-salvadores, vulgo "banheiros", vegeta preguiçosamente, numa apatia de quem bebeu muita cerveja nessa tarde tórrida. Uma pilha de latas de cerveja rodeia os corajosos salvadores: Mané, Jó, Tó e Necas.

No cimo da torre de vigia, olhando incomodado para este grupo, está o nosso herói: Manuel, um jovem banheiro de vinte e poucos anos e que leva a sério o seu trabalho. Tem corpo e postura de atleta, os calções e a t-shirt regulamentares assentam-lhe como um uniforme. De binóculos em punho, olha em volta, tentando aparentar um ar profissional e compenetrado, desmentidos pela sua expressão natural, que deixa transparecer o seu carácter tímido e "naif".

Manuel leva os binóculos aos olhos e faz uma panorâmica pela praia.

Na areia junto à torre, uma senhora idosa, visivelmente emocionada, aproxima-se do grupo de banheiros.

"Por favor, ajudem-me, o meu marido... ele... ele..."

Joca responde, com profundo desinteresse: "Está a afogar-se?"

"Não, mas ele não sabe nadar e a bandeira está amarela... ele é um teimoso... não me quer ouvir..."

O Necas intervem, com um ar profissional: "Não há problema, se houver crise, berre, que a malta vai lá..." Dito isto dá um golo na sua cerveja e arrota.

A senhora idosa olha para ele, desconsolada.

Subitamente, ouve-se o grito agudo de uma jovem mulher, despertando os banheiros da sua pesada apatia.

No cimo da torre, Manuel põe-se de pé, apontando os binóculos na direcção do grito e lançando o alarme para os seus colegas: "É uma gaja a afogar-se!"

Em baixo, na areia, o grupo ergue-se atabalhoadamente, atirando as latas de cerveja que têm na mão para a pilha de latas ao seu lado e preparando-se para um salvamento heróico.

"Uma gaja?!"

"Bute ai!"

Se esta cena fosse numa série de televisão, neste momento fazer-se-ia ouvir uma música rock enérgica, que acompanharia uma montagem em câmara lenta dos banheiros a despirem as suas t-shirts, mas em vez de mostrarem as esculturais abdominais a que as séries americanas nos habituaram, descobririam balofas barrigas de cerveja.

Em seguida, este impressionante grupo corre embriagado pela praia fora, tropeçando em pacatos veraneantes, atirando areia para a cara de outros e derrubando chapéus de sol, até caírem, exaustos, à beira-mar.

No cimo da torre, Manuel assiste, desconsolado, a este triste espectáculo, e ao longe continuam a ouvir-se os gritos lancinantes da mulher que se afoga.

Manuel pousa os binóculos, tira a sua t-shirt — revelando um tronco musculado — salta eficazmente da sua torre de vigia e passa velozmente pelos seus colegas, que ou jazem na areia, ou tentam defender-se desastradamente da justa indignação dos veraneantes.

Chegado à beira-mar, Manuel corre decidido para as ondas e mergulha. Emerge e nada com braçadas vigorosas na direcção de Susie, uma jovem americana, que continua a gritar estridentemente por socorro.

"Help! Help me!"

Manuel nada até ela e agarra-a, aplicando com desenvoltura a técnica de socorro a náufragos exemplificada nos manuais.

Enquanto ele nada energicamente, puxando-a para terra, Susie não consegue evitar um sorriso, que imediatamente disfarça, voltando a representar o papel da donzela em apuros.

"Oh my god! Thank you! Oh, my god!... you’re my hero!"

Com evidente satisfação, Susie aprecia o braço musculado que a enlaça.

Já na areia, Susie finge que desmaia deixando a sua boca semi-aberta num convite sensual, e, com um olho entreaberto, observa Manuel, que timidamente se debruça sobre ela, preparando-se para aplicar respiração boca a boca.

Manuel sente-se intimidado pelos arfantes e volumosos seios de silicone de Susie, mas acaba por aproximar a sua boca dos lábios dela e, segurando-lhe no nariz, inclina-se para aplicar a respiração boca a boca.

Susie finge que desperta, e, para espanto de Manuel, o exercício de salvação transforma-se num prolongado beijo. Ele ergue a cabeça, confundido, e ela responde-lhe com um sorriso.

"You’ve saved me! My hero!"

Susie abraça-o.

A pequena multidão que entretanto se juntara rapidamente em torno deles irrompe num aplauso entusiástico.

"Muito bem! Dá-lhe! Força aí!"

Manuel olha em redor, um pouco aturdido. Um sorriso cresce na sua face. Alguns dos banheiros aproximam-se, furando entre a multidão e olhando espantados para Manuel e para Susie.

Susie, dominadora, pega na cabeça de Manuel e beija-o outra vez.

Os banheiros não podem acreditar no que estão a ver.

"É a gaja americana!" diz o Joca "Eu já a tinha visto na discoteca..."

Numa área não muito afastada da multidão que rodeia Manuel e Susie, a senhora idosa que antes pediu ajuda aos banheiros, estrebucha para retirar o seu marido meio-afogado do mar, enquanto lhe ralha como se fosse uma criança.

Nesse fim de tarde, com o céu laranja e vermelho de um pôr-do-sol que anuncia mais um dia quente, Manuel e Susie — o herói e sua donzela salva -- caminham à beira-mar de mão dada, conversando romanticamente, numa mistura de inglês e português. Susie conta-lhe que vive em Los Angeles e Manuel fica fascinado, pois o seu sonho é ser banheiro em Malibu, como na série de televisão Baywatch. Susie revela que é actriz e Manuel fica ainda mais interessado.

O passeio tem de acabar abruptamente pois Manuel, para exemplificar a Susie como fazer uma pedra saltar na água, atira um calhau ao mar, que depois de dois saltos, ao terceiro, atinge a cabeça de um mergulhador que acaba de emergir. Susie ri-se, enquanto o mergulhador, furioso, gesticula obscenidades para Manuel e o ameaça com a espingarda de caça submarina.

O fim de tarde romântico — se assim se pode chamar — acaba com um jantar num restaurante típico de cozinha regional.

Sentados a uma mesa, Manuel e Susie conversam animadamente, enquanto lutam denodadamente com o marisco fumegante que lhes foi servido. Manuel acaba por salpicar Susie com molho de uma lagosta que tentava trinchar atabalhoadamente. Atrapalhado, ergue-se para limpar as nódoas da blusa de Susie, mas mais atrapalhado fica ao tocar com as mãos os seus seios -- embora Susie emita um profundo suspiro de prazer ao toque de Manuel. Olham-se nos olhos...

A porta do modesto apartamento de Manuel abre. É um estúdio que logo quase à entrada tem uma cama, na direcção da qual Manuel aponta, sorrindo para Susie no limiar da porta. Ela responde-lhe com um sorriso de excitação. Mas Manuel não está a apontar insinuador para a cama, mas sim para as paredes que estão cobertas de posters da série de televisão "Baywatch" com a Pamela Anderson e o David Hasselhof e outras fotos típicas das praias do sul da Califórnia.

Manuel sorri orgulhoso dos seus posters.

Susie fica decepcionada.

Nessa noite a cama servirá apenas de sofá para assistirem juntos a mais um episódio do Baywatch.

A decepção de Susie já deu lugar a um profundo enfado, que tem dificuldade em ocultar.

"Amanhã acabam as minhas férias..." anuncia Susie a Manuel, quando o aborda junta da torre de vigia na manhã a seguir ao heróico salvamento e patética noite.

"Já?"

"Yeah, back to Los Angeles."

A menção de Los Angeles faz Manuel começar a sonhar.

"Hollywood..."

"Yeah, sure, Hollywood..." responde Susie sem grande entusiasmo.

"Sabes, por vezes penso se conseguiria fazer alguma coisa lá... Estou farto desta terra, deste país..."

"Porque é que não vens até à Califórnia? Um latino atraente como tu de certeza que ia fazer sucesso."

"Achas?", Manuel não esconde o seu entusiasmo, "Sabes que eu sempre quis ser actor, como o Antonio Banderas, ou mesmo o Joaquim de Almeida, conheces?"

"Claro que sim! Eles são bons!"

"Se calhar tens razão. Eu podia tentar fazer de figurante no Baywatch; sabes que eu ganhei o prémio de melhor banheiro o ano passado..."

"Oh really?"

"Podia tentar fazer tanta coisa! Aqui vou ser banheiro para o resto da vida... e há tantas coisas que eu queria ver e fazer! Queria ver as pegadas das estrelas em Hollywood, queria..."

Susie tapa-lhe a boca com a mão.

"Chiu... não digas mais nada. Hoje é a nossa última noite..."

Ela aproxima o rosto e beija-o.

Nessa noite, a televisão não está ligada no apartamento de Manuel.

Manuel e Susie beijam-se apaixonadamente deitados na cama. No entanto, Susie olha desconfortável para os posters de raparigas californianas na parede por cima da cama.

"Desculpa-me, mas primeiro tenho de fazer uma coisa..."

Surpreendido, Manuel vê Susie levantar-se e rasgar os posters da parede. Ele vai para protestar mas ela volta a cair-lhe nos braços. Susie sorri.

"Assim é melhor! Agora é só entre nós!"

Ainda em estado de choque, Manuel deixa-se arrastar novamente para cima da cama por Susie, que cala o seu esboço de protesto com um beijo ardente.

Um dia passou sem Susie e já se nota a diferença. Manuel, sentado na torre de observação, tem um ar miserável: as olheiras escuras debaixo dos olhos e o olhar distante. Os seus colegas conseguem parecer mais enérgicos que ele, o que diz muito.

Um avião passa ao longe, subindo lentamente para a sua altitude de cruzeiro, e Manuel olha para ele com um ar nostálgico.

A nostalgia torna-se sono e Manuel adormece para sonhar que está no famoso passeio das estrelas no Hollywood Boulevard, caminhando de mão dada com Susie, lendo os nomes das estrelas de cinema inscritos no passeio. Um grupo de adolescentes excitados aborda Susie pedindo autógrafos. Manuel olha para ela com orgulho, enquanto ela passa autógrafos e uma multidão começa a rodeá-la. Continuam o seu caminho, ainda acompanhados à distância por alguns admiradores de Susie. Saem do passeio e entram no pátio interior do teatro chinês, onde as mãos e os pés das estrelas de cinema estão gravadas no cimento. Subitamente, o chão começa a vibrar. Um terramoto! Manuel agarra-se a Susie. As pessoas começam a correr em pânico.

Manuel acorda, aturdido, e apercebe-se que está sentado na sua torre de observação que oscila perigosamente. Só quando olha para baixo é que percebe que são os seus colegas banheiros que abanam os pilares da torre.

"Acorda meu! Pode haver pessoas em perigo!"

À noite, vestido e calçado na sua cama, Manuel liga o vídeo para rever o episódio do Baywatch a que assistiu com Susie, mas acaba por desligar a televisão, não aguentando ver a sua série preferida.

Olha em redor com saudade para as paredes vazias e para os posters rasgados no chão.

Sem grande convicção, começa a pegar nos posters tentando colá-los de novo na parede, mas acaba por desistir, atirando-os ao chão. Deita-se na cama com um ar pensativo. Nessa noite, Manuel decide vender tudo o que tem: uma mota e a prancha de surf, e comprar um bilhete de avião para Los Angeles. [CONTINUA]

2º Capítulo

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